O presente ensaio tem como objetivo abordar a temática da violência no conto “Fatalidade”, de João Guimarães Rosa, sobretudo a partir das relações entre sertanejos que estão imersos em um ambiente inóspito de perseguição, guerra e crueldade. “Fatalidade” é um dos vinte e um contos que preenche o livro Primeiras Estórias, de 1962, compartilhando temas comuns no conjunto da obra de Rosa, na qual a crueldade no Sertão é uma das claves importantes para compreender a existência de um lugar em que o sujeito vive em total clima de insegurança. Dessa forma, os valores do sertanejo-jagunço nas narrativas do autor mineiro ultrapassam qualquer explicação de moralidade que se perfaz na cidade, isto é, que tem como base as leis e suas normas. Portanto, no conto prevalece sempre o mais forte, aquele que apresenta a maior força física, assim como astúcia diante das conturbadas relações sociais no Sertão.
Este artigo tem objetivo de refletir sobre o conto “Desenredo”, de João Guimarães Rosa, tendo como perspectiva as convergências entre a narrativa bíblica, especificamente a história de Jó, pertencente ao antigo testamento. As referências aos vários planos da cultura e pensamento universal são colocados na ficção do autor mineiro em uma dimensão que se dá no cotidiano e na ironia. Assim, nossa reflexão em torno da narrativa “Desenredo” perfaz-se na história do personagem Jó Joaquim e sua trajetória no que tange ao perigo, ao amor e a felicidade, numa abordagem irônica e corriqueira pelo sertão, o qual se insere no conjunto da obra Tutaméia, cuja valoração tem como base a comédia.
Este artigo apresenta o objetivo de refletir sobre o lugar do animal na ficção de Guimarães Rosa (1908-1967). Para isto, desenvolveremos uma análise de “As Garças”, último texto do seu livro póstumo, intitulado Ave, Palavra (1970), organizado por Paulo Rónai. Em nossa abordagem, temos a intenção de interpretar criticamente a relação homem/animal, evidenciando-a como questão que corrobora uma ficção atual no que tange às discussões sobre todos os viventes. Trata-se, neste sentido, de uma literatura que realiza um diálogo permanente com a animalidade, o qual chamaremos, aqui, de zooliteratura. Em nosso trabalho, destacamos os estudos de Lucas (1972), Cunha (2013), Souza (2011), Maciel (2011) e Giorgi (2016).
O presente estudo pretende refletir criticamente sobre o corpo de Hermógenes, personagem do romance Grande sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa (1908-1967). Em nossa abordagem, desenvolveremos a perspectiva do informe como questão que corrobora uma desfiguração corporal, prefigurada como da ordem do selvagem. Neste sentido, enfatizaremos o caráter moderno deste personagem, que se apresenta sem forma fixa, sendo, portanto, desmedido, sem contorno e misturado. Para isto, recorremos às reflexões de Moraes (2017), Giorgi (2016), Bolle (1998), Machado (2003), Santiago (2017) e Rosenfeld (2009). Ao lado desses últimos, consideramos, também, o pensamento de Bataille (2018), Derrida (2002) e Agamben (2017) sobre o informe, o animal e o aberto, respectivamente.
Este ensaio tem como objetivo refletir sobre a manifestação do sublime e da dúvida na narrativa “A Terceira margem do rio”, sexto conto do livro Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa. A presente reflexão dá-se a partir do conceito de sublime, formulada pelo filósofo Friedrich Schiller, cuja máxima encontra-se no mito de Prometeu, a clave do herói trágico. Assim, desenvolveremos uma leitura na perspectiva do trágico instaurada na vivência de um sujeito sertanejo, personagem que constrói uma canoa para viver em uma terceira margem. Entretanto, a manifestação da sublimidade intercruza-se com a incerteza ao longo da narrativa, constituindo-se na própria negação do sublime, caraterizada pela existência da dúvida, elemento fundador das narrativas do século XX.