Este artigo procura refletir acerca de uma noção de indeterminação que se dá na materialidade da linguagem atuante na novela “Campo Geral” (1956), de Guimarães Rosa. Os silêncios e as dificuldades de pensar e de dizer presentes na narrativa sugerem uma atenção às experiências vividas, de modo que aberturas possam surgir de formas de vida aparentemente estáveis. A partir do olhar do menino Miguilim, busca-se observar como a escrita de Rosa cria experiências de passagem, fazendo transbordar uma linguagem que não se insere na lógica racional e utilitária. O trabalho analisa a estranheza da sintaxe do texto como tentativa de materializar a perplexidade e a inquietude que tornariam viva a língua escrita. No ato de fabulação de Rosa e do personagem Miguilim, nota-se que a linguagem pode acessar outros mundos. Assim, pensar, lembrar e inventar são meios de expor enigmas. Ao dar concretude ao que não pode ser explicado, são produzidas novas formas de vida, mais dispostas à vulnerabilidade; formas de vida que buscam conviver com as incertezas das experiências sensíveis.
Este artigo propõe uma reflexão acerca da linguagem como abertura para novas formas de vida. A partir de um diálogo com a novela “Cara-de-Bronze”, de Guimarães Rosa, e com textos de Wittgenstein, Viveiros de Castro, Beckett, entre outros, busca-se pensar na língua como passagem, como silêncio e como esquecimento. Ao observar a materialidade atuante na escrita performática, o trabalho procura mostrar a linguagem como um espaço de encontro com as diferenças do outro e com a indeterminação da vida. O silêncio não deve ser compreendido como ausência de som, e sim como uma escuta que atenta para os ruídos do mundo ao redor, possibilitando assim o surgimento de outras sensibilidades.