Este artigo tem como objetivo a análise da correspondência entre João Guimarães Rosa e seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri na relação que travam com a obra Corpo de baile, fundamentando-se nos conceitos de dialogismo e de recepção propostos, respectivamente, pelos teóricos Bakhtin (1895-1975) e Jauss (1921-1997). Assim, a partir da abordagem hermenêutica da Estética da Recepção, a metodologia do trabalho compreenderá as seguintes etapas: estudo do conceito de tradução baseado no texto “A tarefa do tradutor” de Walter Benjamin (1992) e em Haroldo de Campos (1970). Tais autores têm como premissa, respectivamente, a proximidade das línguas entre si, o que torna possível a tarefa da tradução, e que o tradutor precisa “transcriar”, ao exercer uma atividade independente capaz de criar conjuntamente o texto estético. Em seguida, estudo bibliográfico no qual se fará um recorte dos conceitos de dialogismo e de recepção propostos por Bakhtin e Jauss. Por fim, concebendo tradução como tarefa “transcriadora” em que os aspectos receptivo e dialógico encontram-se imbricados, identificar-se-á, na correspondência, como Guimarães Rosa e Bizzarri concebem a atividade de autor e tradutor.
A interessante correspondência entre Edoardo Bizzarri e seu escritor brasileiro; a tradução “técnica” e a grande sensibilidade artística na aventura da versão italiana de Grande Sertão – Veredas.
As cartas que Guimarães Rosa trocou com tradutores de sua obra, devidamente reunidas e organizadas por pesquisadores, têm fornecido um material inesgotável de análise e propiciado um fértil debate sobre seu projeto pessoal de escrita, bem como sobre os processos e produtos da tradução literária. Neste artigo, procuramos explorar a correspondência do escritor com três de seus tradutores visando a ressaltar questões ligadas à tradução da obra rosiana emitidas tanto pelo autor como por seus tradutores. Nas cartas a Edoardo Bizzarri, Curt Meyer-Clason e Harriet de Onís, observa-se que Guimarães Rosa estabelece um sólido vínculo de cooperação, que reverte diretamente nas obras traduzidas. Os argumentos e as reflexões trocadas entre autor e tradutores deixam entrever a concepção de escrita literária de Rosa, sua preocupação com a recepção de seus romances e contos no exterior, bem como a visão do que seus tradutores acreditam ser a tradução literária.
Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem / Doutorado em Linguística Aplicada; Literatura Comparada
O objetivo principal deste trabalho é avaliar as dificuldades de compreensão e de identificação na recepção pela cultura italiana da obra Grande sertão: veredas, desde as encontradas de modo inaugural pelo tradutor italiano, como também as que foram sentidas e indicadas no momento de sua leitura pelos críticos, acadêmicos, pelo autor desta pesquisa, mas, sobretudo, pelos leitores comuns, mostrando, por outro lado, que os problemas encontrados pelos italianos na tradução existem, sob certos aspectos, para os brasileiros urbanos, pois a dimensão linguístico-geográfica presente no romance é tão peculiar que até mesmo muitos leitores de língua portuguesa desconhecem o mundo moldado pela linguagem de Guimarães Rosa o que revela um acirramento da questão universal expressa na fórmula "traduttori, traditori". A partir daí tentamos evidenciar que, embora a tradução de Edoardo Bizzarri tenha alcançado excelente resultado, a obra rosiana, assim como na poesia e mais que em qualquer outra narrativa, impõe, na passagem de um idioma para outro, perdas incontornáveis, seja da harmonia musical e rítmica, seja da riqueza semântica que se oculta no texto original.
Este trabalho examina a correspondência entre Guimarães Rosa e seus tradutores alemão, italiano e norte-americana, com vistas à depreensão e análise de perspectivas rosianas sobre o simbolismo sonoro. Examinam-se as reflexões sobre o tema que se podem depreender (a) das considerações gerais que Rosa faz no corpo das cartas enviadas a seus tradutores; e (b) das detalhadas instruções que ele acrescenta em anexos, para dirimir dúvidas específicas colocadas pelos tradutores. Mostra-se, pela análise das epístolas, que a criação linguística rosiana tende a abarcar de forma deliberada e até certo ponto calculada a sonoridade sugestiva, por meio de singulares onomatopeias, aliterações, assonâncias e padrões rítmicos, resultando em um simbolismo sonoro. Conferindo carga expressiva, força e plasticidade ao texto, o simbolismo sonoro é um importante aliado nas estratégias rosianas de privar o leitor da ?bengala dos lugares comuns? (carta a Harriet de Onis) e de convidá-lo a ter com a língua uma relação que não seja unicamente ?lógico-reflexiva? (Carta a Edoardo Bizzarri). Mostra-se ainda que, no que tange às formas como dialogam com as teorias linguísticas, as reflexões e atitudes tradutórias de Rosa, tendendo à recusa do princípio da arbitrariedade do signo, apresentam convergências parciais com discursos teóricos que sustentam o simbolismo sonoro, em especial os de Jespersen e Jakobson.
Centro de Comunicação e Expressão. Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução
Esta dissertação tem como objetivo analisar o discurso ambíguo de Riobaldo e de como a tradução italiana de Edoardo Bizzarri, através da experiência-reflexão, lida com esse importante aspecto da narrativa em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Além disso, e através da correspondência entre Guimarães Rosa e seu tradutor italiano, procuramos trazer à tona uma série de postulados teóricos dos Estudos da Tradução e da Teoria Literária. Guimarães Rosa sugere ao tradutor traduzadaptações capazes de preservar o modo de deslocar de sua linguagem para que a tradução crie também um devir com a língua. Para analisar o problema sobre o discurso ambíguo de Riobaldo, utilizamos os escritos de Giorgio Agamben, Willi Bolle, Maurice Blanchot e Primo Levi. Para os aspectos da teoria da tradução esta pesquisa fundamenta-se, principalmente, em Antoine Berman, Walter Benjamin, Jacques Derrida e Lawrence Venuti. Para discutir o processo de escritura como devir e a relação do sujeito com esse devir, utilizamos Gilles Deleuze, Michel Foucault e Roland Barthes.
Nesta pesquisa, discute-se a recepção da tradução italiana do livro Grande Sertão: Veredas (1956), de João Guimarães Rosa, realizada por Edoardo Bizzarri e publicada na Itália, em 1970, pela editora Feltrinelli. A descrição é feita sob três aspectos: a materialidade do livro, a perspectiva linguística e a dimensão mitológica. A partir desta última criou-se nesta tese a noção de mitotradução, baseada na teoria novalisiana de tradução mítica e na concepção de romance mitomórfico de Benedito Nunes. O texto em Língua Italiana foi analisado segundo os Estudos Descitivos da Tradução, na linha de Gideon Toury, e os modelos de descrição sugeridos por Lawrence Venuti, divisando o modo pelo qual o tradutor se torna coautor. A correspondência entre Rosa e Bizzarri é vista como uma guia seguida no processo traducional. A recepção da tradução na Itália, especialmente em Roma, é analisada através de entrevistas feitas a leitores universitários e ao público em geral.
Esta dissertação é um estudo da correspondência de Guimarães Rosa com seus tradutores - Curt Meyer-Clason, Edoardo Bizzarri e Harriet de Onís, que verteram suas obras respectivamente para o alemão, o italiano e o inglês - buscando inicialmente destacar nas cartas as peculiaridades específicas do discurso epistolar, para investigar em seguida aspectos da vida e obra do escritor. Tal investigação privilegia a análise e interpretação dos enunciados das cartas com o objetivo de mostrar a manifestação e encenação da subjetividade do escritor, e os conceitos estéticos que elabora e explica aos seus tradutores, explorando as aproximações e tensões sob as quais essa subjetividade do escritor, e os conceitos estéticos que elabora e explica aos seus tradutores, explorando as aproximações e tensões sob as quais essa subjetividade e essa estética se organizam e se relacionam.