Três dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras, João Guimarães Rosa, o mais recente imortal da Casa fundada por Machado de Assis, vem a falecer, deixando consternados não apenas seus confrades, mas o país inteiro. Este trabalho tem por objetivo apresentar um estudo sobre a imortalidade do escritor de Cordisburgo em três movimentos. Com base nas reflexões de Maurice Blanchot, em “A literatura e o direito à morte” (1997), investiga-se as relações entre morte e imortalidade: primeiro, tentando compreender a repercussão que o evento da morte de Rosa teve na mídia nacional, a partir de hemeroteca criada e mantida pela Academia Brasileira de Letras; segundo, analisando a imortalidade através da linguagem, ao evidenciar de que maneira o autor se imortaliza com sua literatura e pelos desdobramentos crítico-criativos que sua obra provocou; e, terceiro, procurando compreender como o autor imiscui-se em sua própria literatura ao fazer-se personagem de si mesmo, imortalizando-se na e pela linguagem.
Integrante do grupo de pesquisa em literatura e afins – Nonada, coordeno
atualmente o projeto “Enciclopédia do grande sertão”, cuja proposta é reunir reflexões
temáticas de diferentes autores, na forma de verbetes, sobre Grande sertão: veredas. Neste
trabalho, pretendo fazer alguns apontamentos sobre vestígios, pistas e sinais deixados pelo
escritor nos livros de sua biblioteca – hoje sob custódia do IEB – Instituto de Estudos
Brasileiros da Universidade de São Paulo – que remetam ao processo de composição do
romance. Para tanto, fiz um levantamento em toda publicação, constante na biblioteca,
anterior a 1956, ano da primeira edição da narrativa, que contivesse alguma marginália a
servir de índice que levasse ao processo de composição do relato de Riobaldo. Por essas
pistas, é possível entrever os diálogos que o escritor estabelece com os mais variados saberes,
tais como filosofia, religião, matemática, biologia, medicina, geografia, história, literatura,
dentre outros. Assim também o é com as mais diferentes línguas, como o alemão, o espanhol,
o francês, o inglês, o italiano, e outras mais. Através desses sinais, podemos provisoriamente
concluir uma primeira premissa: a natureza enciclopédica (Umberto Eco) de Grande sertão:
veredas, que o projeta como a uma espiral; um redemoinho rumo ao infinito.
Este artigo pretende desenvolver uma análise comparativa entre a passagem em que o personagem Gavião-Cujo transmite aos jagunços a notícia da morte de Joca Ramiro em Grande Sertão: veredas e a música “Notícia do Norte” do grupo paulista Nhambuzim. As relações intersemióticas devem ser exploradas de modo a proporcionar novas possibilidades de estudo, trabalho e interpretação. Para tanto, foi utilizada a semiótica como ferramenta teórica a partir da perspectiva de autores como Hildo Honório Couto e Lúcia Santaella, além de outros que nos ajudaram no aspecto musical, como Murray Schafer e James Russel. Ao analisarmos o processo intersemiótico, bem como ao avaliarmos até que ponto a música se assemelha ao romance, chegamos à conclusão de que esses sistemas são complementares e ganham novas dimensões quando contrapostos.
Análise comparativa de Maleita, de Lúcio Cardoso e do conto “Sarapalha”, de Guimarães Rosa, tendo como ponto de partida a expressão do outro como doença. Desse modo pretendo discutir como os estranhos são tomados como algo negativo nesses textos a partir dos sujeitos que enunciam o discurso.
ste artigo propõe uma análise da representação da infância em Campo Geral, de Guimarães Rosa, levando em consideração a abordagem sócio-histórica explorada pelo narrador. Neste sentido, apresenta-se uma infância na qual se mesclam elementos antigo-medievais e modernos em constante ciclo de tensão, conforme Jaques Le Goff. Ao analisar o conceito de infância com essa perspectiva, sem refutar os elementos míticos e místicos, consideramos que os componentes contraditórios da narrativa não são solucionados, mas potencializados por meio de ritos de passagem experimentados pelo protagonista Miguilim: os medos, os conflitos, as perdas e as separações que fazem parte dessa concepção antropológica da infância na narrativa rosiana.
Este trabalho tem por objetivo realizar uma análise comparativa da atuação de Soropita e de Iládio na novela “Dão Lalalão, (o Devente)”, presente em Noites do Sertão, para evidenciar de que forma o embate entre essas duas personagens, ao final da narrativa, parece encenar um ritual que institui a crise do poder coronelista, porque suprime a proximidade do trato diário e institui um distanciamento que supostamente evidencia a entrada da lei do Estado no sertão. Para tanto, toma-se como referencial teórico a noção de homem cordial, cunhada por Ribeiro Couto e discutida por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil.
A literatura e a história modernas são discursos legitimadores. Relatos que oficializam vozes capazes de ameaçar a integridade de uma genealogia. Este trabalho tem por objetivo analisar, na literatura de Guimarães Rosa, de que forma personagens ditas bastardas são enunciadoras de discursos que rompem com a linearidade discursiva, fendem genealogias para nelas inserirem, na forma de suplemento, suas experiências enquanto agentes que são de uma narratividade, cuja visibilidade se torna possível somente quando os metarrelatos têm sua soberania posta em questão.