O objetivo deste ensaio é investigar, através da análise dos contos “As margens da alegria” e “Os cimos”, do livro Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, e de alguns poemas de João Cabral de Melo Neto, o modo como esses autores abordam as ambigüidades do processo de modernização urbana no Brasil, ao elegerem a cidade de Brasília como ponto de partida para uma reflexão sobre as especificidades da interface moderno/arcaico na cultura brasileira.
Em um país continental como o Brasil, o território contribui na formação de variadas identidades ligadas aos diferentes espaços que compõem a realidade nacional. A tradição literária, ao conferir tratamento estético a tais formações identitárias, elaboram mitos que estruturam o imaginário social referente à noção de brasilidade. Dentre os mitos assim produzidos, o do sertanejo é central tanto para questão da identidade nacional como para o desenvolvimento da tradição literária. Este trabalho aborda a evolução desse signo a partir da análise de obras características de diferentes momentos do sistema literário brasileiro: Os Sertões, de Euclides da Cunha; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; O rio e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto e Essa Terra, de Antônio Torres. A pesquisa revelou que a representação literária fratura a categoria sertanejo em dois gêneros segundo os diferentes roteiros migratórios que eles realizam: o “sertanejo errante” e o “sertanejo retirante”.
Esta tese estabelece diálogos entre o discurso artístico-literário dos escritores-diplomatas João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa e Vinicius de Moraes e o discurso das modernidades tardias no Brasil. Os textos analisados, publicados em meados do século XX, voltam-se para espaços periféricos, a que denominamos 'sertão' - áreas excluídas do projeto de modernização do país - e para o homem comum, seu saber, sua inventividade, seu comportamento nem sempre redutíveis aos dispositivos de enquadramento social. Neste trabalho, a escrita diplomática, de caráter oficial, torna-se escritura: discurso permeado pelo pensamento transdisciplinar, pela imaginação estética e pelo cuidado ético. A análise comparada de autores com propostas artísticas e conceituais tão diferentes propicia o surgimento de sentidos pouco evidentes nas obras.
Pesquisas em acervos onde se encontram textos produzidos por João Cabral de
Melo Neto e João Guimarães Rosa revelam a existência de importantes
articulações entre o posicionamento dos escritores-diplomatas em relação aos
parâmetros técnico-científicos da modernidade hegemônica. Os autores
questionam o empreendimento moderno, no que tange à mecanização
racionalista do mundo, à destruição da natureza e à visão do humano como
“homemmáquina”. Estudos em arquivos literários contribuem para uma maior
percepção a respeito do lugar ocupado pelo poeta e pelo escritor na
configuração da paisagem intelectual de meados do século XX. Ofícios,
diários, cartas, entrevistas encontrados em acervos revelam interseções entre o
caráter estético e ético da escritura e alargam a noção do objeto literário. O
homem comum mostra-se capaz de desestabilizar dispositivos do controle e de
propor espaços mais libertos de existência.
Quando foi inaugurada, a cidade de Brasília visava a marcar um espaço de convergência do Brasil em torno de um ponto situado em seu interior. A cidade, ícone maior do projeto desenvolvimentista de JK, trazia a imagem do arrojo técnico, da vanguarda, do progresso brasileiro. Acreditamos ser próprio do trabalho intelectual trazer à discussão elementos que tornam o espaço não tão tranquilizador. João Cabral de Melo Neto e João Guimarães Rosa registraram impressões relativas à nova capital federal. Suas criações contribuem para questionar, a partir de imagens heterotópicas, valores relativos ao mito unidade nacional. Por outro lado, os autores apostam na modernidade, sobretudo estética,
como modo de superar estruturas arcaicas.