Inscrita no referente espacial da paisagem sertaneja, a narrativa ficcional de “O Recado do Morro”, de João Guimarães Rosa, fundamenta a sua articulação diegética no mitema nuclear da viagem.
A partir da circunstância concreta de uma deslocação, num indefenido “julho-agosto” (11), de uma comitiva de cinco homens (o guia pedestre Pedro Orósio, três patrões, seo Alquiste, Frei Sinfrão, e seo Jujuca do Açude, e o cavaleiro Ivo da Tia Merência), desde os “fundos do município”, em Cordisburgo, pelas coordenadas agrestes do sertão, o mote da travessia oferecerá pretexto para se poetar a íntima itinerância do homem pela cartografia mágica do retorno a si mesmo. Filtrado pelo ângulo subjectivíssimo da perspectivação narrativa, sobressairá neste enquadramento expressivo, pela intensidade da sua mensagem profética, a instância sobrenatural da voz do Morro das Garças; transmitida por uma galeria muito ampla de outros actantes dramáticos, numa sequência simbólica de sete ecos distorcivos, a ela cabe preparar projectivamente os momentos de progressão da intriga, e enunciar obliquamente os sinais do castigo e da redenção do herói.
A fundamentação simbólica do conto instaura-se sobre uma complexa rede de referências intertextuais, onde podem reconhecer-se muito ecos das tradições literárias greco-latina e bíblica. É, pois, a hermenêutica desses ecos poéticos que nos propomos fazer com esta comunicação.
Este ensaio é dividido em duas partes e, na primeira delas, tendo como base a teoria de comunicação poética de Paul Zumthor, analisaremos seis performances de dois grupos de contadores de estórias de Cordisburgo, Minas Gerais, que divulgam a obra do escritor João Guimarães Rosa por meio de apresen- tações públicas. Na segunda parte, utilizaremos as noções de Zumthor para analisar a presença do contador de estórias na obra de Guimarães Rosa, a partir das personagens Joana Xaviel e Camilo, de Uma estória de amor; e Laudelim, de O Recado do Morro, dois contos da obra Corpo de Baile.
Este trabalho apresenta um estudo da narrativa “O recado do morro”, de João Guimarães Rosa (1908-1967), quarta novela do volume Corpo de baile (1956), que destaca a relação entre o enxadeiro Pedro Orósio, a quem um recado é supostamente enviado pelo Morro da Garça, e deve compreendê-lo para que sobreviva a um ataque à traição comandado pelo seu amigo Ivo; e o músico popular Laudelim Pulgapé, que musicaliza o recado no final da narrativa e salva Pedro da morte. Faz-se uma aproximação entre a forma como a futura canção é transmitida até seu último transmissor, Pulgapé, e a maneira como o poeta participa da criação artística exposta em Íon (c. 399/391 a.C.), de Platão (c. 428/427 a.C.-348/347 a.C.), em que Sócrates lida com uma divinização da construção poética, transformando-a em algo que só é permitido pela manifestação dos deuses. Aproximando as obras, valendo-se da crítica de Erich Soares (2014) e baseado no método estético-recepcional de Hans Robert Jauss (1921-1997), pretendemos atentar para uma arte que é vinculada à inspiração e que pode se manifestar em indivíduos, como acontece em Guimarães Rosa, desprovidos da razão ou mesmo marginalizados pela sociedade, tal qual acontece em “O recado do morro”, em que os transmissores/receptores são personagens dotadas de características excêntricas ou que não atraem a atenção por serem consideradas loucas ou ingênuas. Aplica-se, à novela, as reflexões socráticas que apresentadas no referido diálogo, em que a “rocha” precisa dos “anéis” para transmitir um comunicado a um elemento que muito participa da sua constituição.
Esta dissertação consiste em um estudo do louco e do poeta como personagens na novela "O recado do morro", de João Guimarães Rosa, publicada originalmente no livro Corpo de baile (1956) e mais tarde realocada no volume No Urubuquaquá, no Pinhém (1965) por desejo do autor, ao lado de outras duas narrativas daquela publicação. A leitura da obra revelou um texto que concilia a um só tempo elementos que se agrupam em relações dicotômicas e maniqueístas na cultura ocidental, em que estejam o elemento racional e sua pretensão de verdade no lado positivo das relações de contrários. Portanto, objetivou-se compreender como os tipos sociais aludidos contribuem para a dissolução das fronteiras culturais por meio da construção do personagem, discurso e imagens que emergem deste. Para isso, leu-se a novela a partir do conceito de escritura, pensado por Roland Barthes, que concebe a literatura moderna enquanto espaço utópico de liberdade dentro dos fatos da linguagem. Estabeleceram-se comparações intertextuais e metatextuais a fim de relacionar referências que justificariam as escolhas literárias do escritor mineiro no intuito de pensar novos sentidos para o texto em discussão. Feito isso, percebeu-se que a loucura e a oralidade, compreendidas respectivamente por Michel Foucault e Paul Zumthor, são elementos que questionam a metafísica ocidental desde a própria forma, tal qual a escritura rosiana, cuja análise alude às ideias de pensadores como Friedrich Nietzsche e Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Faculdade de Letras, Departamento de Ciência da Literatura
A literatura de Guimarães Rosa é um espaço de entrecruzamento, onde muitas vozes desestabilizam as pretensões de uma unificadora e autoritária. Por esta dinâmica, suas estratégias para a ficcionalização da oralidade configuram inusitada resposta discursiva ao desafio de representar nossa heterogeneidade cultural, pois seus textos amalgamam diversas formas lingüísticas e fazem colidir diferentes pontos de vista. Portanto, o recurso à heteroglossia, este locus de falas em oposição, constitui o eixo do engendramento da narrativa rosiana, refratando o fluxo de variados discursos ou consciências. Ou seja, ao incorporar uma gama de registros, acentos e tons, as novelas sobre as quais nos detemos - "O recado do morro" e "Cara-de-Bronze" - enunciam a co-presença de inúmeras alteridades, produzindo uma polifonia, e contrapondo-se ao despótico do monologismo. Ademais, ao questionar parâmetros teórico-críticos e ao enfocar contextualizadamente o manejo da oralidade na escritura de Rosa, nossa pesquisa fundamenta-se na provocante multiplicidade investigativa oriunda das vertentes críticas abertas pelos Estudos Culturais e Pós-Coloniais, tanto quanto pelo comparatismo de cunho multicultural. Desta maneira, primeiramente, estudamos, na recepção crítica da obra rosiana, os vetores analíticos atinentes à ficcionalização do discurso oral, aferindo os critérios que consideraram o texto representativo da "autêntica" brasilidade. Neste processo, questionamos o cânone literário e crítico, e a forma como os estudiosos compreenderam as estratégias, empreendidas por Guimarães Rosa, para textualizar uma cultura multifacetada. No segundo capítulo, propomos uma leitura de "O recado do morro", abordando a narrativa no plano de uma literatura empenhada em ressignificar o universo da oralidade. Pois, ao revitalizar a palavra escrita, oralizando-a, esta novela rejeita todo e qualquer projeto estético orientado para inscrever apenas "litera...
Instituto de Letras e Comunicação. Programa de Pós-Graduação em Letras.
Novela que ocupa o centro do volume Corpo de baile (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967), “O recado do morro” apresenta elementos que a tornam singular entre as outras seis que compõem o ciclo novelesco, a exemplo do seu final com características míticas, após um percurso no qual o narrador se alonga em descrições marcadas por cientificismo que denotam o vasto conhecimento do escritor mineiro, que também não deixa, no âmbito da prosa modernista, de buscar nos clássicos inspiração para contar a estória de Pedro Orósio. Não é sem motivo que tomamos “O recado do morro” como um texto plural, em que é possível captar diversas formas de arte que, juntas, formam a totalidade de um texto amplamente poético, que, ainda, problematiza a questão do papel da arte e da literatura, ao desvelar, por intermédio de um recado que se torna canção compreendido pelo enxadeiro como um alerta, uma relação entre experiência estética e a vida. Buscamos em Hans Robert Jauß (1921-1997) a base metodológica e teórica necessária para a compreensão do objeto desta monografia, que também conta com o aporte estético-recepcional postulado pelo teórico alemão que, por meio de um levantamento seletivo, mapeia a crítica da obra e se utiliza de estudos que possuem destaque, o que é o caso dos estudos de Ana Maria Machado (1991), Marli Fantini (2008), Erich Soares (2014), entre outros. Longe de uma resposta definitiva, antes procuramos lidar com a pluralidade que a obra de Guimarães Rosa carrega e com a constatação de que, ao longo do tempo, se aprofundou a concepção do texto e, cada vez mais, se desvelou a compreensão do artista acerca da função de sua obra.
Este trabalho de interpretação de "O Recado do Morro" trata da forma mesclada do conto com outras modalidades de narrativa, provindas da tradição oral, em consonância com o processo histórico-social que rege a realidade também misturada do sertão rosiano, múltiplo e labiríntico, fonte e origem do mito e da poesia. O estudo descreve e tenta apreender assim a mistura peculiar que define a singularidade do conto, intrinsecamente relacionada ao mundo misturado que tanto encanta quanto desconcerta. Na reconstrução da mistura como um todo orgânico, em que o conto parece renascer do interior da poesia do mais fundo do sertão brasileiro, se busca tornar inteligível um verdadeiro processo de esclarecimento, que culmina com o reconhecimento de sua própria identidade relacionado à terra natal à qual o herói retorna, de modo triunfal.
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, História Social
O presente trabalho parte de duas obras básicas da Literatura Brasileira: "Um homem célebre", de Machado de Assis e "O recado do morro", de João Guimarães Rosa. A partir desse corpus analítico abordam-se os seguintes aspectos: em que medida, obras de ficção possibilitam a compreensão dos mais variados momentos históricos; como os mitos podem ser retomados e reinterpretados em momentos distintos da História; como o mito de Fausto, relido pela ótica da modernidade, pode servir para que se analisem as raízes do individualismo capitalista, emergente no Brasil, na passagem dos séculos XIX e XX; como o mito de Hércules, relido pela ótica do desenvolvimentismo brasileiro pós Segunda Guerra, pode servir para que se entendam alguns aspectos do acalentado projeto de fazer despertar o "gigante adormecido".
Sustentado pelo método hermenêutico triádico da estética da recepção, sobretudo baseado nos textos “A história da literatura como provocação à teoria literária” (1994), proposto por Hans Robert Jauss (1921-1997) vinculado à temática da Literatura Brasileira deste encontro, esta comunicação tem por objetivo analisar a temática da representação do estrangeiro em “O recado do morro” (1956), de João Guimarães Rosa (1908-1967), pertencente à coletânea Corpo de baile, especificamente da na figura de seo Alquiste ou seo Olquiste, um pesquisador e naturalista, que realiza uma excursão em torno do Morro da Garça (MG), juntamente com outras pessoas (o guia Pedro Orósio, Frei Sinfrão, o fazendeiro Seo Jujuca do Açude e Ivo Crônico), com intuito de explorar o sertão. Viagem esta guiada por Pedro Orósio, moço, com estatura alta, que viajava com os pés descalços, de passadas muito extensas e ligeiras, tão forçoso, de corpo nunca se cansava, namorador, e conhecedor da região, um exemplo nato da perso
Na novela “O recado do morro”, temos a contraposição de duas ordens da realidade (plano real e plano mítico) que, dialeticamente, se desdobram em um espaço, ou seja, este se caracteriza como um ambiente que faz parte do espaço físico (real), mas também apresenta “referências míticas”. Diante dessa dupla feição do espaço pretendemos desenvolver um breve estudo sobre a composição do espaço em “O recado do morro”, novela de Corpo de baile (1956), no intento de esclarecer como Guimarães Rosa se vale de elementos advindos de diferentes campos do conhecimento, neste caso o científico e o poético, na constituição de uma narrativa em que há correlação desses diferentes campos do saber no que diz respeito ao espaço percorrido pela expedição guiada por Pedro Orósio. Este trabalho será realizado por meio de uma interpretação que pretende analisar como se evidenciam os mecanismos utilizados por Guimarães Rosa para compor um espaço com a presença do real e do mítico, ao comparar trechos da narrativa em foco aos relatos de viagem de Spix (1781-1826) e Martius (1794-1868) e aos trabalhos paleontológicos (Ciência que estuda a vida passada da Terra) e espeleológicos (estudo de cavernas e grutas) desenvolvidos por Peter Lund (1801-1880) no sertão mineiro. As referências a esses trabalhos transparecem na narrativa por meio da utilização de nomenclaturas e descrições científicas registradas pelos naturalistas em termos como o megatério, o tigre-de-dente-de-sabre, a protopantera e os homenzarros. Para desenvolver esta tarefa, utilizamo-nos como aporte teórico dos estudos estético-recepcionais de Hans Robert Jauß (1921-1997), sobretudo em A História da Literatura como provocação à Teoria Literária, das teorizações de Mircea Eliade (1907-1986) acerca do mito e, no que tange às possibilidades de um estudo comparativo nos utilizaremos de textos de autores como Henry Remak (1994) e René Wellek (1994).
Esta comunicação pretende examinar o conto “Recado do Morro” de Guimarães Rosa (1908-1967) à luz dos estudos culturais bem como referenciando-se na filosofia de Vilém Flusser (1920-1991), em suas ricas contribuições a esse campo de análise. É sabido que tal filósofo conheceu pessoalmente Guimarães Rosa e, embora grande parte da obra de Rosa seja anterior, o pensamento flusseriano pode a ter influenciado. Flusser defendeu que “o estrangeiro, categorizado como tal, se opõe diretamente à repulsa daqueles que se encontram acomodados, à repulsa dos monoglotas e dos experts que desenham fronteiras entre os territórios do conhecimento e da memória” (Cf. Finger, 2008). Para ele, “não há fronteira, não há dois fenômenos no mundo que possam ser divididos por uma fronteira, que seria sempre uma separação artificial.” (Cf. Finger, 2008). A partir disso, cabe aqui analisar a personagem Alquiste ou Olquiste, do conto “O Recado do Morro”, de Guimarães Rosa, considerando a problematização do estrangei
“O recado do morro” foi publicado no segundo volume de Corpo de Baile, pela José Olympio, em 1956. Desde então, tem sido estudado, no conjunto novelesco de que faz parte, pela crítica brasileira sob diversos enfoques: cultural, filosófico, crítico-genético, etc. Nesta comunicação analisaremos alguns estudos dedicados, especificamente, a essa obra de Guimarães Rosa, por exemplo, o trabalho de Marli Fantini (2003) insere-o em um amplo debate sobre a tematização de diversidade cultural; Heloísa Araújo (1992) examina as diversas referências religiosas e filosóficas, Hélio Miranda (1999), ao examinar as relações entre a terra e o homem, ressalta a importância do texto para a compreensão do universo ficcional rosiano. Tais estudos salientam a importância da obra e, ao mesmo tempo, abrem novas possibilidades de leitura, ainda por fazer, como uma análise hermenêutica de sua história recepcional. Postula-se, neste texto, que a estética da recepção se define filosoficamente pela transitividade d
O artigo reflete mais diretamente sobre duas das sete narrativas de Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa (1956). Com o desdobramento em 3 outros livros que se dá na 3ª edição (1964/65), “O recado do morro” e “Cara-de-Bronze” passam a integrar o “Livro 2” da obra: “No Urubuquàquà, No Pinhém”, também formado pela novela “A Estória de Lélio e Lina”. A proposta coloca em diálogo as mudanças editoriais do livro no tempo, atestadas nas correspondências do escritor, com os enredos e temas das duas narrativas, apontando e analisando um movimento de escrita que ao mesmo tempo é artística e histórica. Nessa perspectiva, concebe-se o sentido histórico delineado em uma composição literária elaborada no uso de outras linguagens artísticas. Assim, menciona-se no artigo a linguagem cinematográfica, elaborando historicidade na narrativa, e corporeidade sonora das imagens, onde se situam as marcas musicais. Pela trama literária, estará marcada o que apontamos como temporalidades múltiplas, que escrev
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