No presente estudo, objetiva-se analisar na novela A estória de Lélio e Lina, de João Guimarães Rosa -- que integra a obra Corpo de baile -- como esta se atém à transformação da família patriarcal -- até então centrada no pater familias cujo poder se estendia a todos os membros do clã, mas, com maior rigor às mulheres -- na família moderna, na qual este poder se esvanece. Será através da mudança no comportamento sexual feminino, presente na novela em análise, que terá início este processo de transformação que minará a velha estrutura patriarcal rural que imperou no Brasil deste o início da organização familiar no período colonial até o início do século XX.
O artigo mostra reflexões sobre o erotismo e a inutilidade (BATAILLE, 2017; ANTELO, 2017), e sobre o absoluto (EINSTEIN, 2019) e suas consequências — como as reduções generalizantes (KRENAK, 2019; IMBASSAHY, 2019); partindo de uma análise dos significantes relacionados a flores — especialmente dos nomes de três personagens mulheres, Carmela e duas Rosas: Carmela, quase uma camélia; uma Rosa (simplesmente Rosa) de Mário de Andrade, que é uma “Rosa aberta”, no botão; e outra Rosa (Rosalina) de, também, um Rosa, Guimarães Rosa, esta na “desflor”. As três têm dentro e fora de si possibilidades de um reflorescimento. São estas personagens — d’A estória de Lélio e Lina, de João Guimarães Rosa (1978), e do livro “Os Contos de Belazarte”, de Mário de Andrade (1980) — que permitem uma ampla leitura do significante “rosa” (uma das mais famosas flores do mundo) e, por extensão, do significante “flor”. Isto é, uma leitura das estórias destas personagens permite quebrar a ideia do absoluto, e da forma que se representa a flor. As flores estão, deste modo, muito menos para formas estáveis do que para forças: há, em cada uma delas, formas infinitas, instáveis e indefinidas, como pontua o filósofo italiano Emanuelle Coccia (2018).
Este artigo trata do lirismo de Guimarães Rosa que se volta para a idealização e sentimentalismo característicos dos contos de fada. Focaliza-se particularmente a personagem Rosalina, do romance "A estória de Lélio e Lina", do livro No Urubuquaquá, no Pinhém, velhinha de raras qualidades, cujas falas são impregnadas de poesia e sabedoria. O seu relacionamento com um moço vaqueiro, que, ao encontrá-la pela primeira vez, já se sente atraído pelos seus poderes incomuns, é mostrado como belíssimo caso de profunda afeição entre uma anciã e um jovem.
O trabalho consiste em analisar o vínculo entre poeticidade, imaginação e memória nas narrativas “Buriti”, “Dão-lalalão – o devente” e “A estória de Lélio e Lina de Guimarães Rosa. Para tanto, toma-se como ponto de partida a presença da imaginação e da memória na constituição dos protagonistas masculinos, respectivamente, Miguel, Soropita e Lélio que, no sertão construído pelo escritor, vivenciam singulares experiências, em especial, nos recônditos da imaginação e da memória, geralmente suscitadas pelos relacionamentos com os pares femininos. Como, nas narrativas selecionadas, o devaneio, a fantasia e a memória são, em geral, apresentados poeticamente, investiga-se a similaridade entre certos processos discursivos oriundos da função poética da linguagem e mecanismos observados naqueles procedimentos. Como essa orientação peculiar dos protagonistas para a imaginação e a memória confere tratamento diferenciado ao espaço e ao tempo, o estudo dessas categorias contempla, primeiramente, os ensaios críticos sobre a obra rosiana em geral e sobre as três novelas em particular. Em segundo lugar, toma-se o instrumental teórico da poesia, no qual cabe destacar os textos basilares de Roman Jakobson “Lingüística e poética” e “À procura da essência da linguagem”. O estudo da imaginação e da memória como elementos atuantes nas personagens encaminha-nos a obras centradas na simbologia do imaginário, como As estruturas antropológicas do imaginário de G. Durand; ancoradas na filosofia, como as de H. Bergson, Matéria e Memória e Ensaio sobre os dados imediatos da consciência; na relação entre a palavra mítica e a linguagem, como Antropologia filosófica e Linguagem e mito; e de fundo psicanalítico, como “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” de J. Lacan.
Este trabalho consiste na análise da narrativa “A estória de Lélio e Lina” de Guimarães Rosa, centralizando-se na observação da relação existente entre as personagens femininas que entram em contato com o protagonista dessa obra e naquelas que fazem parte da trajetória de Riobaldo em Grande sertão: veredas. A análise da estrutura narrativa é feita centrando-se nos elementos que a aproximam da definição de “narrativa poética”, terminologia proposta por Tadié. Assim, observa-se que a poesia e o mito têm importância fundamental na elaboração artística do autor: o espaço – a fazenda do Pinhém – é, de fato, um espaço mágico e mítico, recuperando o arquétipo do paraíso perdido; o tempo narrativo é cíclico, sugerindo a idéia de um não-tempo, ou tempo primordial, de origem das coisas; o narrador, apesar de exterior à história em questão, sempre segue a visão de Lélio, o protagonista, assumindo características de um eu-lírico. Além disso, é feito um estabelecimento das similaridades entre cada uma das personagens femininas que entra em contato direto com Lélio - Sinhá Linda, Jiní e Rosalina – e aquelas que se relacionam a Riobaldo – Otacília, Nhorinhá e Diadorim. Essa parte da análise tem o objetivo de esclarecer que papéis tais personagens femininas desempenham na busca dos protagonistas e demonstrar que existem similaridades entre a trajetória de Lélio e de Riobaldo.
O objetivo deste estudo é mostrar como se dá o processo de individuação das personagens de Guimarães Rosa, nos contos Substância, Estória Nº3, A estória do homem do pinguelo, Um moço muito branco, As margens da alegria, Os cimos, A terceira margem do rio, e na novela A estória de Lélio e Lina, sob a perspectiva junguiana. Segundo o psicólogo, o embate com o outro, a relação de alteridade, é condição fundamental para a maturação psicológica do indivíduo. Somente através do confronto com o não-eu, o sujeito pode lograr atingir o seu si-mesmo, ou seja, atingir a máxima expressão de suas potencialidades inerentes. Demonstrarei como, nas narrativas citadas, a relação muitas vezes problemática entre opostos é a via de superação dos problemas existenciais vivenciados pelas personagens.
Instituto de Estudos da Linguagem. Programa de Pós-Graduação em Teoria e História Literária.
Este texto busca estudar os aspectos políticos, históricos e sociais trabalhados por João Guimarães Rosa em "A estória de Lélio e Lina", texto presente em Corpo de Baile. Para isso, se analisará como as palavras e ações de Lina servem para resgatar a ordem de um mundo em transformação. Ao se perceber em pleno encontro do moderno com o tradicional na zona rural de Minas Gerais no final do século XIX e início do XX, Lélio sente-se perdido. Ele precisa de Lina para se situar em meio ao dinamismo da História e poder formular/reformular seu papel enquanto agente e sujeito de sua vida. As referências que o texto faz aos processos de transformação histórica são o objeto da pesquisa. O que insere este trabalho na linha de análise dos componentes históricos e sociais presentes na obra de Rosa e, sem desprezar os outros enfoques analíticos, busca analisar tal obra em meio à cultura e à época em que ela se desenvolveu e ver o que ela tem a dizer a respeito de seu mundo.
Considerando que na cultura patriarcal a "voz" da mulher é, de certa maneira, apagada, este estudo
pretende mostrar, na narrativa de Guimarães Rosa, a voz das personagens femininas, que configuram uma espécie de desarticulação quanto ao patriarcado. Centrando a análise em Jini e nas "tias" Conceição e Tomázia, retrataremos o poder simbólico exercido por essas mulheres, que não mais se submetem ao mando masculino e executam a ação em "A estória de Lélio e Lina". Dessa maneira, o autor pretende dar visibilidade às mulheres excluídas do discurso histórico oficial presente no ambiente sertanejo, alterando a representação comum deste espaço. Segundo Deise Lima, em Encenações do Brasil Rural em Guimarães Rosa (2001), há, na trama rosiana, o espaço de uma fazenda de pecuária do Pinhém, em que o cotidiano se movimenta por meio de uma dialética entre os desejos e frustrações dos vaqueiros, que acabam por buscar na casa das tias, e, no caso de Lélio, também em Jini, uma forma de se evadirem dos
No Urubuquaquá, no Pinhém (1964), de João Guimarães Rosa (1908-1967), é composta de três narrativas:
"Cara-de-Bronze", "O recado do morro" e "A estória de Lélio e Lina". Esta última novela será o objeto de análise do presente trabalho. Centrada no protagonista Lélio de Higino, vaqueiro recém-chegado à fazenda do Pinhém para trabalhar na fazenda de seo Senclér, a trama é marcada por diversas temáticas que se circunscrevem no sertão, entre as quais se destacam o amor (NUNES, 1964), fonte de inquietação para a maioria das personagens e pelo erotismo como forma de supressão daquilo que se gostaria de ter. O último tópico mencionado será o ponto central de análise da novela em questão. Com base na Estética da recepção de H. R. Jauss (1921-1997) quanto à experiência estética do leitor diante do texto literário e nas concepções de Georges Bataille (1897-1962) acerca do erotismo, que se fundamenta na ideia de uma ruptura de fronteiras, em outras palavras, numa transgressão dos limites estabel
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