O artigo analisa, comparativamente, dois feiticeiros negros da literatura brasileira: Joaquim
Cambinda, personagem de A carne, de Júlio Ribeiro, e João Mangolô, do conto “São Marcos”, de João
Guimarães Rosa. No primeiro caso, vê-se um retrato estereotipado da prática religiosa de matriz africana, ao passo que, no segundo, tem-se um processo de resistência à opressão racial promovida justamente pelo exercício de linguagem envolvido no manejo da palavra mágico-religiosa.
O artigo propõe discutir como aspectos de narrador e linguagem podem aproximar leitor e personagem e como podem, consequentemente, alcançar aquilo que Candido chamou de função humanizadora da literatura. O artigo propõe uma leitura de “São Marcos”, conto de Sagarana, e “Campo geral”, novela de Corpo de baile.
O discurso das poesias de Manoel de Barros e o das narrativas de Guimarães Rosa constroem estilos poéticos erigidos, em muito, a partir do tropos imagético. Em Barros, a metáfora instaura – valendo-se de rupturas semânticas, fragmentação de frases, montagem caótica de versos, ausência de semelhança causal entre as coisas – significação que subverte o real como denúncia da coisificação do homem por sociedade desumanizadora
que precisa, urgentemente, ser modificada, subvertida, revolucionada. Em Rosa, a metáfora surge, quase sempre, na reiteração de imagens, embalada por onomatopeias, crispada por neologismos, amplificada por subversiva sintaxe, em jogo lúdico que exprime o ethos poético e a ética do autor. Este artigo analisa em paralelo o estilo dos dois autores, examinando – em suas obras – a elaboração do jogo metafórico e respectivos efeitos de sentido.
No ano em que se comemora o cinquentenário de morte do escritor Guimarães Rosa, o presente artigo objetiva discutir de que modo a questão do sagrado se faz presente na coletânea de contos que compõe a obra Sagarana, do escritor mineiro. A proposta de leitura que aqui se apresenta será feita tendo por princípio a noção de sagrado que é defendida pelo poeta e teórico mexicano, Octavio Paz, que vê o sagrado e a poesia como exemplos de revelação poética. O livro Sagarana, primeira publicação literária de Guimarães Rosa, é composto por nove contos, no entanto, neste artigo se pretende dialogar com apenas três narrativas, por acreditar que uma leitura de todos os contos exige um trabalho de maior extensão e fôlego que requer algo além dos limites de um artigo. As narrativas objetos de interlocução aqui, portanto, são: A hora e vez de Augusto Matraga, São Marcos e Corpo fechado.
Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária
O objetivo desta dissertação é investigar a presença da entidade Autor-Criador em interação com as personagens nas narrativas São Marcos e Sarapalha , da obra Sagarana (1946), de João Guimarães Rosa (1908-1967). A partir dos pressupostos da estética material de Mikhail Bakhtin (2006), entende-se que não há vinculação entre obra e vida do autor, considerando que a literatura corrente faz a conexão do estudo da obra à vida do escritor, para apenas ouvir a sua voz, a revelar-se em confidências. Para o autor, toda análise estética não deve ser orientada diretamente sobre a obra, mas sobre o que a obra representa para a atividade estética do artista e do leitor. Nosso objeto, aqui, se delineia como o conteúdo dessa atividade estética orientada sobre a obra: o objeto estético. Esta é a dupla perspectiva, aqui, aplicada à leitura das narrativas rosianas: ler o objeto estético na sua singularidade e na estrutura artística chamado objeto estético arquitetônico, concepção que permite ao Autor-Pessoa (elemento ético-social) desdobrar-se em Autor-Criador (elemento constitutivo da forma artística). Dessa forma composicional é concretizada a unidade entre a consciência do Autor- Criador e o mundo exterior resultante de uma Mente arquitetônica, que faz do mundo (outrem) seu enunciado, e, desse, sua consciência: com esse olhar pretendemos ler o estranho em Guimarães Rosa. Em outras palavras, ler a forma artística em acontecimento ou realização. A metodologia de leitura aplicada neste estudo também se fundamenta no conceito de objeto estético, ao praticar a discriminação e isolamento do material analítico-dedutivo da percepção habitual para o insólito da forma artística literária de ambos os textos os contos de Sagarana em suas especificidades crítico-interpretativas. O teórico de nossa referência é Mikhail Bakhtin e os autores de apoio conceitual aplicados à análise e interpretação assim se nomeiam: Tzvetan Todorov; Katerina Clark & Michael Holquist; Roland Barthes; Antonio Cândido; Massaud Moisés; Carlos Alberto
Faraco; Marília Amorim; Renata Coelho Marchezan.
O propósito desta dissertação é apresentar uma leitura de duas narrativas de Sagarana, São Marcos e A hora e vez de Augusto Matraga, como alegorias do fazer literário em G. Rosa. Na primeira, os elementos de feitiçaria, de reza brava e de experiências com a palavra são tomados como alegorias das concepções de linguagem e dos modos como se produzem os fazeres literários. Estas concepções e estes procedimentos passam por vários ensaios de avaliação de sua força produtora de efeitos poéticos e ficcionais, o que faz de São Marcos um laboratório da língua e de seus personagens verdadeiros artífices da palavra. Na segunda, a experiência do homem frente ao seu destino e sua luta contra a dominação e em favor da permanência de sua fama são consideradas como experiências semelhantes às do trabalho com a linguagem contra a domesticação normativa da escrita, o desgaste pelo uso excessivo ou o esquecimento pelo desuso. Assim, neste conto, a ficção encena, como seu efeito alegórico, a recaptura da condição selvagem, primitiva da linguagem. Em ambas, esta leitura tenta colher os elementos de uma poética rosiana, profundamente meditada e pensada no interior de sua própria produção literária.
Nesta dissertação são discutidos os temas Linguagem, Memória, História e
Literatura na obra de João Guimarães Rosa, utilizando aportes teóricos de Walter
Benjamin, Michel Foucault e Sigmund Freud, considerados aqui os autores
fundamentais para o trabalho, ainda que sejam mencionados outros autores. São
analisados os contos “São Marcos” e “A menina de lá” (Linguagem); “Quadrinho de
estória” e “Cara-de-Bronze” (Memória); “A simples e exata estória do burrinho do
comandante” e “A terceira margem do rio” (História).
O presente trabalho concentra-se na análise de como, através dos elementos
narrativos, como narrador, personagens e historia, Guimarães Rosa constrói o tema da justiça em contos de Sagarana. Embora toda a coletânea seja levada em consideração, demos ênfase no estudo de: "O burrinho pedrês", "Duelo", "São Marcos", "Corpo fechado", "Conversa de bois" e "A hora e vez de Augusto Matraga". Percebemos que a justiça construída nos contos tem sempre duas formas de manifestação: a justiça humana e a justiça divina, que rege todos os acontecimentos das histórias.
Este trabalho tem como objeto de estudo os contos de Sagarana. primeiro livro de Guimarães Rosa, publicado em 1946, que marcaria definitivamente a literatura brasileira, uma vez que nos deparamos com a construção de uma nova linguagem, em que a Língua Portuguesa surge recriada através da associação de uma linguagem culta ao falar sertanejo, sempre com uma sensibi1idade que funde num conjunto inédito: arcaísmos, neologismos, expressões regionais e a linguagem literária propriamente dita. Dentre os nove contos que compõem a obra, selecionaremos os seguintes, para serem analisados: "O Burrinho Pedrês" , Traços Biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo , São Marcos" e A hora e vez de Augusto Matraga". Entre as hipóteses que organizam e fundamentam o fio condutor deste trabalho, abordaremos a estética das narrativas, o processo criador e a oralidade, ou seja, como Rosa traduz esse mundo da oralidade, recuperando a fala arcaizante na construção de sua narrativa escrita. Utilizaremos no desenvolvimento das questões propostas e desenvolvidas nesta pesquisa, o raio de abrangência vinculado ao suporte teórico da Paul Zumthor, Câmara Cascudo, Sílvio Romero; Antonio Candido e Alfredo Bosi, entra outros. Veremos, portanto, no decorrer das narrativas, como são empregadas as expressões populares que lhe dão origem. Serão destacadas, nesse processo, citações que demonstram a presença dos costumes do povo, traduzidos por intermédio de quadrinhas, cantigas, lendas, mitos, anedotas e provérbios. Dessa forma, veremos que as manifestações da cultura popular falarão por si, e o pensamento rosiano se fará conhecer através da arte da linguagem utilizada para o leitor do texto. Veremos a vivência do povo transmudada para a arte.
Atenção! Este site não hospeda os textos integrais dos registros bibliográficos aqui referenciados. Para alguns deles, no entanto, acrescentamos a opção "Visualizar/Download", que remete aos sites oficiais em que eles estão disponibilizados.