Nas últimas décadas, a inscrição do animal na literatura tem assumindo novos contornos e complexidades, assistindo-se à emergência de uma zooliteratura fundada numa apreensão inédita da animalidade e no trespassamento das fronteiras entre o humano e o não humano. Cada vez mais, os escritores têm multiplicado as tentativas de encenar, por procuração ficcional, novas formas de interação com o animal, seja pela via do compartilhamento de sentidos e afetos, seja pela dos devires e metamorfoses. Neste contexto, a ficção animalista do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, um dos maiores animalistas do século XX, constitui um paradigma modelar da figuração literária do animal, visto e escrito, não como simples constructo teórico-ficcional, mas antes como sujeito dotado de uma subjetividade própria e capaz de um olhar interrogante e judicativo sobre o Homem. É o que se tentará demonstrar, neste trabalho, através da leitura crítica de três dos seus contos: “O burrinho pedrês” e “Conversa de bois”, de Sagarana (1946), e “Meu tio o Iauaretê”, de Estas estórias (1969).
O artigo faz relações entre o pensamento de Schopenhauer e a literatura de Guimarães Rosa a partir das idéias da compaixão e do sofrimento formuladas pelo filósofo alemão.
O presente trabalho visa fazer uma análise do conto O burrinho pedrês de João Guimarães Rosa a partir da representação do espaço de definição do lugar ocupado por homens e mulheres. Abordar-se-á como esse processo de limitação da mulher em determinados espaços funcionaria como forma de exclusão apesar de a imagem feminina estar muito presente no imaginário masculino. Para esse trabalho utilizar-se-á a teoria do espaço de Borges Filho (2015), BOUDIEU (2016) e BLANCHOT (2011), através de método dedutivo analítico.
Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária
Esta pesquisa vislumbra um estudo da narrativa de “O burrinho pedrês” de Guimarães Rosa, sob a luz do seu projeto de escrita denominado Platform. O projeto delimita-se por meio da análise das correspondências trocadas com seus tradutores, de entrevistas e de depoimentos dados pelo escritor. Nele se reflete uma linha de pensamento que orienta e direciona seus tradutores para uma tradução mais livre (CARVALHAL, 1993), cujos aspectos essenciais seguem o mesmo caminho percorrido pelo escritor na criação de seus textos. Essas concepções são rastreadas na narrativa do burrinho, que se apresenta como pórtico da primeira obra de peso do escritor e de sua produção em prosa, configurando seu caráter inaugural, dentro de um panorama nacional que corresponde à terceira geração do Modernismo no Brasil (CANDIDO, 1989). Entre outros aspectos, são destacados os traços que o texto apresenta e que o aproxima dos contos maravilhosos (COELHO, 1987), tema também discutido por Wladimir Propp (1984); do fantástico (TODOROV, 2008); e da narrativa artesanal (BENJAMIN, 2012). Para se ratificar o caráter experimental e híbrido do conto, o estudo ainda atenta às relações macro e micro, no nível estrutural e temático entre a narrativa central e as mini-narrativas. Todos os fatores levantados contribuem para a visualização do campo analógico criado entre a vida dos homens e a dos animais e fomentam uma possível leitura da obra.
Este estudo parte da constatação do extremo adensamento da presença da animália na obra de Guimarães Rosa, onde é chamada a desempenhar os mais variados papeis. São analisadas as obras precoces (1929/1930); o livro de poemas Magma e as estórias de Sagarana. "O burrinho pedrês", a primeira das narrativas deste livro, é estudada em profundidade, recortada em busca do motivo da animália, como tema, seja como figura.
O presente trabalho é resultado de uma pesquisa sobre a questão animal a partir da leitura de duas narrativas de Guimarães Rosa, "O burrinho pedrês" e "Conversa de bois", publicadas em 1946, em Sagarana. A pesquisa tem como fio condutor o estudo sobre os critérios que preconizaram a cisão entre o homem e o animal. Para tanto, recorre às discussões sobre zoopoética e biopolítica propostas por Maria Esther Maciel, que identifica na racionalidade e na visão antropocêntrica uma espécie de hierarquia que permite a prática da dominação animal. Entrecruzando referências bibliográficas sobre o animal e os textos críticos sobre Guimarães Rosa, sugere-se repensar as personagens animais nessas duas narrativas de Rosa, distanciando-se de leituras alegóricas ou simbólicas
Centro de Humanidades, Departamento de Literatura, Programa de Pós-Graduação em Letras
João Guimarães Rosa definia-se como um homem do sertão e mostrava-se fortemente ligado à terra. Ao longo de sua monumental obra encontramos densos registros sobre essa ligação. Em 1965, revela em entrevista a Gunter W. Lorenz seu peculiar interesse por animais, diplomacia, religiões e idiomas. A biografia do escritor não se dissocia da obra. Dessa forma, evidencia-se em O burrinho pedrês e Conversa de bois - o tratamento conspícuo dispensado aos bichos. Assim sendo, procederemos a um exame das referidas novelas de Sagarana tendo como escopo a estreita relação do homem com a natureza e, mais detidamente, com os animais. Para tanto, utilizaremos textos teóricos que versem acerca da inserção humana em ambiente natural - entre eles os de Leonardo Boff e Nancy Mangabeira Unger - e literários - mitos gregos e latinos e lendas indígenas. Veremos ainda que as novelas selecionadas para análise apresentam crianças e animais. Esses seres interligam-se e vivenciam a atuação de forças sobre-humanas em suas vidas. Ao longo do trabalho relacionaremos ao tema de nossa pesquisa os desdobramentos da autodefinição de Rosa supramencionada em sua existência (infância em Cordisburgo, vida doméstica no Rio de Janeiro, viagens ao exterior e ao interior de Minas Gerais, passeios) e obra (novelas de Sagarana, sobretudo).
O objetivo deste trabalho é fazer uma leitura do conto "O Burrinho Pedrês", da obra Sagarana, de João Guimarães Rosa, tendo como ponto de análise a estilização do contar "causos" e seu processo narrativo. No que refere ao processo de narrar estórias, esta análise volta sua atenção aos modos de como a narrativa de "O Burrinho Pedrês" acontece, considerando aqui a mescla dos gêneros narrativos, assim como a mescla das narrativas populares e cultas. Da mesma forma, este trabalho preocupa-se também com os recursos estilísticos usados pelo autor no presente conto, como ritmo, sonoridade, melodia, rimas e a apropriação da poesia popular. Estes recursos todos estabelecem na obra "O Burrinho Pedrês" um ponto de encontro entre as literaturas: da tradição oral e culta.
Um elemento mágico e impulsionador, o qual faz fluir uma história plena em verossimilhança, coerência, mediante fatores "cadenciados", os quais revelam a preocupação do autor em colocar na sua criação aspectos elaborados com um esmero singular. Neste trabalho, procurar-se-á expor algumas percepções de leitura e relatar, possíveis modos de travessia(s) literária(s), cuja via será "O burrinho pedrês", primeiro conto/novela da obra "Sagarana", de João Guimarães Rosa. A abordagem seguirá à luz de pressupostos teóricos de autores como: Roland Barthes, Ítalo Calvino, Ângela Leão, dentre outras/os.
Tendo como corpus os contos Meu tio Iauaretê e O Burrinho Pedrês, de João Guimarães Rosa, pretendo apresentar o andamento de minha pesquisa sobre a representação de personagens literários em condição de humanização e/ou animalização. O estudo terá como fio condutor a análise sobre a “linguagem” e o “pensamento” como critérios determinantes para essa condição, tendo em vista o meu interesse em identificar os aspectos ou as circunstâncias que estabelecem a fronteira entre o humano e o animal. Para tanto, com a contribuição teórica de Norbert Elias e de Starobinski, proponho problematizar o conceito de civilização cuja definição está estritamente correlacionada a padrões de comportamento e à distinção social. Nesse sentido, procuro sustentar a possibilidade de que a fala organizada (bem como determinadas variações da língua) está associada a uma forma articulada de pensamento e, por isso, torna-se critério civilizatório e de humanização. Paralelamente a essa perspectiva, recorro às discus
Pretendo apresentar a pesquisa que estou desenvolvendo sobre a questão animal em duas narrativas de Guimarães Rosa: “O burrinho pedrês” e “Conversa de bois”, publicadas em Sagarana. Em ambas, prevalece o ponto de vista dos animais sobre o mundo e sobre si mesmos. Nesse sentido, por meio da composição da interioridade de personagens animais e também da valorização de diferentes vozes discursivas, as duas narrativas despertam uma reflexão sobre a problematização das categorias de “humanidade” e “animalidade”, estabelecidas pela ciência e pela filosofia ocidentais. Portanto, a partir do estudo sobre a construção da escrita de Guimarães Rosa, proponho uma investigação sobre a questão animal emerge nas histórias selecionadas para o corpus dessa pesquisa. Para tanto, busco um diálogo com os textos de Maria Esther Maciel, bem como de Derrida, Montaigne e Jakob Von Uexkull, reconhecendo suas diferenças teóricas e considerando as contribuições que possam sustentar outras formas de pensar o animal, sobretudo na cultura do sertão roseano. Dessa forma, procuro evidenciar que a literatura em Sagarana “abala” a noção de “humanidade” como algo que se afasta da condição animal.
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