Fundamentalmente, uma questão atravessa nossa leitura: como o universo in fantil se entremeia ao universo do narrador adulto, onisciente, que acompanha seu olhar até certo ponto. Para tentar responder, o ensaio investiga de que maneira esse universo infantil se relaciona com o tempo e o espaço que o Menino percorre, o que leva a uma questão maior: a articulação entre História e mito-tanto no sentido de enredo, "mythos", · como, e sobretudo, no sentido de narrativa mítica, de significação simbólica.
Este trabalho objetiva tratar do tema da infância na obra de Guimarães Rosa, tendo como ponto de partida os contos de abertura e encerramento de Primeiras estórias, publicado em 1962: “Nas margens da alegria” e “Os cimos”. Os contos apresentam uma estrutura semelhante, em que a personagem infantil, identificada como “menino”, viaja de avião para a cidade de Brasília em companhia do tio. Como toda viagem, esta depreende o contato com um mundo novo, em que várias descobertas no âmbito real e no simbólico promovem um processo de amadurecimento psíquico na criança. Essa estrutura básica, na qual o motivo da viagem tem particular importância, pontua a aderência de Rosa a uma tradição literária que remonta ao “romance de formação” alemão. Considerando a remodelação dessa forma literária a partir de seu pressuposto temático-formal fundamental, a viagem e sua potencialidade no desenvolvimento do eu no encontro/contato com o outro, propõe-se uma leitura dos contos, na qual o tema da “viagem de formação” ganha destaque e a figura infantil alcança lugar central na narrativa brasileira moderna.
Os contos “As margens da alegria” e “Os cimos”, primeiro e último, respectivamente, do livro Primeiras estórias (1962), de João Guimarães Rosa são analisados comparativamente objetivando investigar o olhar da personagem infantil em relação ao espaço ao seu redor. Ambos os contos trazem a figura de um Menino que se desloca de casa para um lugar onde uma grande cidade está em fase de construção. Acredita-se que o espaço seja um elemento que possibilita conceber a imersão dessa personagem, enquanto sujeito perceptivo, em um mundo socialmente partilhado. Dessa forma, a análise feita se sustenta em teorias que discutem o espaço ficcional enquanto materialização das experiências humanas, nos contos, mais especificamente, das percepções e experiências da personagem infantil.
Nesse trabalho temos o objetivo de comparar dois contos: “As margens da Alegria”, do livro de contos Primeiras Estórias (1962), do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, e o “O viajante clandestino”, do livro Cronicando (1991), do escritor moçambicano Mia Couto. A comparação entre os textos do autor brasileiro e do autor moçambicano detecta em seus dois textos a presença do imaginário infantil. Analisaremos os textos cada um em suas especificidades e depois os cotejaremos. Observaremos com a infância é apresentada a partir do trabalho com a linguagem a partir da teórica SANTOS (20140. Do texto de Mia Couto emergem diálogos com a literatura brasileira. Palavras-chave: Guimarães Rosa; Mia Couto; imaginário infantil; comparação
“As margens da alegria”, conto de abertura do livro Primeiras estórias encena, sob o signo da modernidade, a construção de uma “grande cidade” cujas bases utópicas serão examinadas em contraponto ao modelo de “cidades letradas”, emblematizado por Brasília, a mais contraditória encarnação dos sonhos de utopia política da modernidade brasileira.
FFLCH / Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa
Realiza-se neste trabalho um estudo comparado de dois contos pertencentes ao macrossistema das literaturas de língua portuguesa: "As margens da Alegria", do livro de contos Primeiras Estórias, do escritor brasileiro João Guimarães Rosa, e "O viajante clandestino", do livro Cronicando, do escritor moçambicano Mia Couto, utilizando como suporte teórico o comparatismo de solidariedade teorizado por Benjamin Abdala Junior, a partir da conceituação de sistema literário formulado por Antonio Candido. A dissertação focaliza os contos buscando articulação entre eles do ponto de vista temático e estrutural, enfatizando o narrador e a linguagem, e detectando em sua construção narrativa a presença do imaginário infantil. Inicialmente, analisamos os contos em suas especificidades e depois estabelecemos confronto entre ambos para detectar similitudes e diferenças entre os autores na construção de suas narrativas, buscando sempre a correlação com o conjunto da obra de cada autor.
A proposta da dissertação é fazer um estudo das esferas da recepção da obra de Guimarães Rosa, a fim de traçar uma história das leituras desde o lançamento de Sagarana (1946). Tal trajeto busca identificar as marchas e contramarchas da crítica, as linhagens privilegiadas e as relegadas a um plano inferior, durante o século XX, pela mídia impressa (dos jornais de época aos mais recentes trabalhos acadêmicos no Brasil e no exterior) e não impressa (traduções para o cinema/televisão, música/contadores de estórias, teatro/artes plásticas e Internet). Na parte final, procura-se analisar os contos extremos de Primeiras estórias, verificando como aparecem ficcionalmente retratadas as ambigüidades da modernização "rurbana" no Brasil.
A proposta desta dissertação é estudar a rememoração na obra Primeiras estórias (1962), de
João Guimarães Rosa, tendo, como suporte teórico, a teoria da reminiscência de Platão. Para o
filósofo, a alma é imortal, pois sempre renasce em diferentes corpos. E quando uma pessoa
aprende algo ocorre uma rememoração, porque há apenas a recordação de um saber já
adquirido pela alma no mundo das ideias. Pretende-se, com base nessa teoria de Platão,
compreender os acontecimentos considerados misteriosos nas estórias rosianas, por se
distanciarem da lógica tradicional, e os comportamentos enigmáticos dos personagens. Por
serem muitas as narrativas que compõem o livro Primeiras estórias, restringiu-se o corpus a
sete contos: “A terceira margem do rio”, “A menina de lá”, “Sorôco, sua mãe, sua filha”,
“Nenhum, nenhuma”, “Um moço muito branco”, “As margens da alegria” e “Os cimos”.
Faculdade de Letras, Departamento de Letras Vernáculas
Esta Dissertação desenvolve um estudo sobre a correlação do mítico, do simbólico e do imaginário na constituição da narrativa de Primeiras estórias, de João Guimarães Rosa, tomando por base os contos Pirlimpsiquice, O Espelho, Darandina, A Terceira Margem do Rio, As Margens da Alegria e Os Cimos. Estabelece-se nela a arte como manifestação do real. Defende-se a idéia de que Primeiras estórias possui um princípio interpretativo inerente a estrutura da obra. As reflexões giram em torno das conceituações sobre a consagração do tempo e do espaço, iniciação, imanência, transcendência e transdescendência, Homo Viator (Religiosus/Trans/humano), personagente, psiquiartista, elementos apresentados de modo original na obra de Guimarães Rosa. A palavra chave deste trabalho é travessia, sinônimo de metamorfose, de conversão, mostrando que, por isso, a narrativa está em metamorfose constante, convertendo em símbolo todos os seus elementos. Mostra, ainda, que a força mágica do narrar é o agente ficcional de coesão no qual o mítico e o simbólico se integram na invenção rosiana da realidade. A verdade poética de Primeiras estórias é uma manifestação mítica, simbólica e imaginária. O real é a interação dialética desses três pontos que convergem e convertem o narrar rosiano em narrativa mitopoética: ela não imita a realidade, mas manifesta-a. A mímesis não é imitação, mas concriatividade do mítico, do simbólico e do imginário na constituição do real.
Instituto de Letras. Programa de Pós-Graduação em Letras.
Este trabalho procura acompanhar a trajetória de personagens infantis de Guimarães Rosa e de Raduan Nassar, a fim de compreender os textos literários à luz de sua época – o Brasil da segunda metade do século XX. O objetivo é analisar se, nesses autores de obras consideradas tão universais, existe a particularidade brasileira em primeiro lugar nas narrativas. Para tanto, procedeu-se aos estudos dos ritos de passagem pelos quais passam essas crianças, observando também os movimentos do narrador de aproximação ou de afastamento desses personagens. Aponta-se, por fim, as marcas do país – a condição social, a situação política do período e também os próprios costumes – como elementos importantes na constituição dessas obras.
Este artigo tenta compreender o papel do menino como representação social e como ele influencia na formação da sociedade. Neste trabalho relatar-se-á sobre essa temática, estudando o menino em“As margens da alegria” de Primeiras Estórias (1962) e o menino da doida em As Filhas do Arco-Íris (1980). A experiência vivenciada pelo narrador de “As margens da alegria” retoma os desejos da infância, as alegrias de ver novos lugares e se vislumbrar com a perfeição da natureza, da diversidade e com características de um animal. Para o Menino, o momento é de aprendizagem, pois vivencia as mais diversas experiências. Em As Filhas do Arco-Íris, um menino narra sua infância sofrida e alegre no meio da comunidade de Gurinhatá. Ao mesmo tempo em que conta a história da vila até a chegada da modernização convive com o cego, o bêbado e o doido, e aprende a narrar ouvindo as estórias do velho Pai Estevão.
A discussão entre as semelhanças, diferenças e inter-relações entre história e
literatura, realidade e ficção, permeia as obras de muitos especialistas de ambas as áreas há
muito tempo. Vocábulos como estória e história foram – e ainda são, em alguns contextos –
usados, no Brasil, com diferentes significados: estória referir-se-ia a ficções, algumas vezes
mirabolantes e inverossímeis, e história trataria do real. Na obra rosiana a História e a Estória
coexistem em perfeita harmonia. As fronteiras entre o histórico e o mito são tênues, quase
imperceptíveis. Em suas narrativas, a realidade brasileira, a religiosidade, as tradições
populares – as histórias – estão inseridas nas “estórias” de forma suave e inseparável. Nesta
comunicação pretendemos refletir sobre as possíveis relações, empreendidas por Guimarães
Rosa, entre a história e a estória nos contos “Nas margens da alegria” e “Os cimos” de
Primeiras estórias, livro publicado em 1962.
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