Este artigo tem três objetivos. Em primeiro lugar, busca analisar o papel decisivo desempenhado pela canção popular na composição do projeto literário de Guimarães Rosa. Em segundo lugar, pretende apontar, ao menos em parte, algumas das razões que ajudam a entender a afinidade do compositor popular brasileiro com a obra de Guimarães Rosa. Em especial, o artigo procura compreender o impacto que a leitura da obra de Guimarães Rosa imprimiu na sonoridade elegante e sofisticada das composições de Tom Jobim ? sobretudo, nos dois discos autorais produzidos na primeira metade da década de 1970, Matita Perê (1973) e Urubu (1975). Por último, este artigo arrisca uma hipótese: a existência de uma longa e venerável trama de vínculos entre a literatura e a canção popular brasileiras.
Este ensaio tem como objetivo analisar as formas como Guimarães Rosa representas as relações sociais em Primeiras Estórias, através do uso de técnicas orais de composição narrativa. Utilizando narradores que experimentam aquilo que narram, na perspectiva de Walter Benjamim, ele descreve o inesperado que ocorre no cotidiano, da realidade sertaneja. As análises se deterá nas mudanças apresentadas em três em relações tradicionais do sertão: a mobilidade social, a violência como modo der resolver os problemas e a exploração da força de trabalho. Ao optar por representar essas mudanças, Guimarães Rosa discute, mesmo sem o propósito intencional, a história contemporânea.
Analisam os a narrativa fílmica de Pedro Bial Outras estórias que retoma cinco contos de Primeiras estórias, de Guimarães Rosa. O enfoque da análise são os motivos casamento e velório, que figurativizam os valores universais vida/morte, e o espaço do sertão. A partir desse recorte, propomos uma leitura que pretende demonstrar como o texto de Bial constrói a Cinderela do sertão mineiro.
No conto Sorôco, sua mãe, sua filha, busca-se mostrar a realidade de pessoas com
loucura na época em que a cidade de Barbacena, em Minas Gerias, recebia pessoas de todo o
território nacional com doenças mental, num hospital sanatório chamado Colônia, considerado
“um campo de concentração em pleno Brasil”, segundo a pesquisadora e jornalista Daniela
Arbex, no livro Holocausto Brasileiro (2013). Para tanto, usar-se-á tal referencial para mostrar e
comprovar o discurso lógico, vigente em uma época real, mostrado por Guimarães Rosa no
conto a ser estudado.
Na obra de João Guimarães Rosa, a loucura não é apenas um tema recorrente. Os loucos apresentam-se intimamente relacionados à poética do autor, são detentores de sabedorias que superam o campo estritamente racional, são seres ligados ao mundo profético, à poesia, à criança e a todos os elementos que simbolizam o homem criativo. A partir de uma das sagas de Corpo de baile e de algumas das estórias que compõem a obra Primeiras estórias, este trabalho propõe um estudo de personagens que vivem à margem da razão, de modo a entender a singularidade do desatino rosiano.
O presente trabalho se propôs a analisar o discurso sobre a loucura na literatura e suas
relações com o discurso histórico. Para tanto, tomou-se por base os contos “O alienista”,
de Machado de Assis e “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa, cujas
interpretações serviram de aporte para uma análise do discurso sobre a loucura e o louco
em fontes da cidade de Montes Claros – MG entre as décadas de 1950 e 1980. Como
suporte metodológico foi utilizado o conceito de discurso elaborado por Michel
Foucault e os debates tanto no campo da literatura quanto no da história sobre os
contatos que literatura e história estabelecem quando consideradas linguagens
produtoras de discursos, não de verdades. Para análise do conto machadiano, levamos
em conta, além do diálogo com a fortuna crítica do autor, suas crônicas e os debates
sobre a loucura no âmbito da história, de modo a evidenciar a falência do discurso
científico construído sobre o louco. O conto rosiano foi analisado na perspectiva da
“álgebra mágica”, conceito com o qual Guimarães Rosa diz fundamentar a escrita de
sua literatura. No contraponto do texto rosiano com o contexto histórico da década de
1980 em Montes, explicitamos de que maneira o discurso sobre a loucura já está
socialmente internalizado.
A proposta desta dissertação é estudar a rememoração na obra Primeiras estórias (1962), de
João Guimarães Rosa, tendo, como suporte teórico, a teoria da reminiscência de Platão. Para o
filósofo, a alma é imortal, pois sempre renasce em diferentes corpos. E quando uma pessoa
aprende algo ocorre uma rememoração, porque há apenas a recordação de um saber já
adquirido pela alma no mundo das ideias. Pretende-se, com base nessa teoria de Platão,
compreender os acontecimentos considerados misteriosos nas estórias rosianas, por se
distanciarem da lógica tradicional, e os comportamentos enigmáticos dos personagens. Por
serem muitas as narrativas que compõem o livro Primeiras estórias, restringiu-se o corpus a
sete contos: “A terceira margem do rio”, “A menina de lá”, “Sorôco, sua mãe, sua filha”,
“Nenhum, nenhuma”, “Um moço muito branco”, “As margens da alegria” e “Os cimos”.
Instituto de Letras, Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução, Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução
Este trabalho se inserta nos Estudos da Tradução, mais precisamente na linha de pesquisa Teoria, Crítica e História da Tradução e tem como objetivo a (re)tradução para o espanhol de três estórias de João Guimarães Rosa, na perspectiva da tradução como jogo da diferença. As estórias que conformam o corpus são “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “A terceira margem do rio” e “O cavalo que bebia cerveja”. Em virtude da existência de uma tradução dessas estórias, datada de 1969, realizada por Virgínia Fagnani Wey, e uma retradução, de 2001, de autoria de Valquíria Wey, como objetivos específicos, analisamos suas microestruturas para responder a indagação: Como, estrategicamente, as tradutoras lidam com zonas textuais conflitantes concernentes a traços do estilo da escrita rosiana como escolha do léxico, aspectos verbais, nominalização e sonoridade? Para embasar teoricamente esta investigação recorremos à Teoria dos Polissistemas, aos Estudos Descritivos da Tradução e à Teoria da Retradução. Os modelos adotados para análise e crítica de tradução são o de Berman (1985) e o de Lambert e Van Gorp (1985); como concepção de tradução, reflexões de Blanchot (1971).
Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária
Este estudo tem como objetivo investigar a literatura de João Guimarães Rosa com o propósito de entrever um desígnio na escritura rosiana. Tal intenção foi delimitada pela constatação de que, na fortuna crítica sobre o escritor, poucos estudos se interessaram em indagar sua obra sob o conceito de escritura. Nesse sentido, esta pesquisa visa a revelar a escritura rosiana à luz da concepção mitopolítica de literatura. Para isso, indagamos a composição de sua escritura nas relações que estabelece com a linguagem, o mito e a poesia. Preocupamo-nos em examinar a escritura rosiana segundo uma visão m tica, buscando revelar não só a sua concepção de linguagem, mas também explicitar o seu modo de funcionamento. Orientaram a nossa reflexão as hipóteses: uma abordagem mitopolítica da literatura rosiana permite entrever as realizações metamórficas de sua palavra; a concretude da palavra rosiana permite compreender uma destinação meta física para sua escritura. Para desenvolver este estudo, selecionamos como corpus os contos Sorôco, sua mãe, sua filha (1962), Meu tio o Iauaretê (1961), e Lá, nas campinas (1967). A fundamentação teórica baseou-se nos conceitos de escritura propostos por Roland Barthes e Jacques Derrida, e de mitologia propostos por Mielietinski, Eliade e Cassirer, assim como em ensaios cr ticos propostos por críticos da literatura rosiana. Valemo-nos também dos princ ípios políticos do próprio escritor, coletados em entrevistas. Conclu ímos que a literatura de João Guimarães Rosa evidencia alto grau de realização de linguagem, que a revela como uma espécie de metafísica racionalista, como uma escritura que, ao talhar a palavra, configura as metamorfoses do signo literário, e, ainda, propõe ao homem, via linguagem e, por extensão, via poesia, uma transcendência racionalista, pautada pela metafisicalidade da linguagem.
Pretendemos analisar o conto “Soroco, sua mãe, sua filha”, do livro Primeira estórias, de João
Guimarães Rosa, e revelar aspectos de uma tragicidade nos moldes propostos por Friedrich
Nietzsche em seu Livro, O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Entendemos que os
acontecimentos narrados no conto rosiano traduzem forças apolíneas e dionisícas que,
sobremaneira, expõe tessituras tramadas entre os gêneros do conto e da tragédia. O conto narra a
estória de Sorôco, um homem do povo que, numa sociedade marcada pelo controle, sem condições
de cuidar de sua mãe e sua filha deve, a contra gosto, entregá-las aos cuidados do hospício de
Barbacena. Os acontecimentos narrados comportam nuances de uma encenação trágica, cujas
urdiduras perfazem o coro que, pela forma como surge no conto, assemelha-se à maneira como
Nietzsche o percebe na tragédia grega.
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