O presente artigo pretende discutir três contos de Guimarães Rosa, do livro Primeiras Estórias, em torno da temática da desrazão e suas diferenciações com a loucura. Parte-se de algumas considerações psicanalíticas sobre as relações entre arte e patologia, do ponto de vista da criação, para em seguida focalizar nos contos o modo como as personagens expressam um território não abarcável pela ciência positiva, a que Foucault denominou "Pensamento do Fora". Entre a sanidade domesticada e a loucura, Rosa dá voz à desrazão em personagens de um sertão desconhecido.
A comunicação tem por objetivo expor as relações entre voz, linguagem literária e composição ficcional em um conto de Guimarães Rosa, “Sorôco, sua mãe, sua filha”, abordando a questão da loucura expressa no “canto sem razão” das duas personagens femininas referidas no título. A análise atenta de algumas passagens dessa narrativa de Primeiras estórias leva-nos a escutar as margens extremas que a voz associada à loucura pode alcançar. Por um lado, essa voz ecoa desde a mais absoluta carência de sentido em uma cantiga que “não vigorava certa nem no tom, nem no se-dizer da palavra”; por outro, esse mesmo canto será capaz de reagregar os laços mais vitais de uma comunidade sertaneja. O surpreendente nesse conto de Guimarães Rosa é o fato de ele condensar, em suas poucas páginas, uma voz que ressoa, a um só tempo, aquém e além do sentido que comumente conferimos somente à palavra ou à lógica da linguagem. Para desenvolver essas questões, recorre-se também a alguns teóricos que, nas últimas décadas, pensaram a questão da voz associada ou não à palavra.
O artigo analisa a adaptação para o cinema do conto "Sorôco, sua mãe, sua filha", de João Guimarães Rosa (1962). São objeto do trabalho os filmes Cabaret Mineiro, de Carlos Alberto Prates (1980), e Outras Estórias, de Pedro Bial (1999). O trabalho aborda essas duas adaptações, explicitando e comparando as diferentes escolhas tomadas pelos dois diretores para transpor a mesma obra para o cinema. Também analisa o próprio conceito de adaptação, e como as intenções de cada diretor influenciaram no resultado final da transposição da obra literária para as telas do cinema.
A partir da antropologia da saúde e da psiquiatria transcultural, este estudo teórico analisou as concepções de saúde e doença presentes em três contos que compõem a obra Primeiras estórias (1962), de Guimarães Rosa: “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “A menina de lá” e “A terceira margem do rio”. Observou-se uma diversidade de conceitos e sentimentos diante das questões de saúde mental apresentadas nos contos, como: falta de compreensão, marginalização, pressão social para a institucionalização, estereotipação, desumanização, isolamento físico e mental, sentimentos de medo e culpa, tentativa de aceitação e mistificação. Tendo como norte a indissociável relação entre autor, obra, público e condições sociais, tais elementos presentes nos contos podem ser importantes para se revisitar histórica e culturalmente as práticas dentro dos ambientes de cuidado em saúde mental, em busca de uma atenção mais humanizada e que combata a violência nesse contexto, favorecendo uma visão que, de fato, ultrapasse o modelo biomédico centralizado na patologia e promova novos sentidos para a saúde e o adoecer.
Este trabalho propõe a análise de um dos aspectos da problemática das narrativas do fim, precisamente no que toca à loucura, a partir do conto “Soroco, sua mãe, sua filha”, de Guimarães Rosa. Tem como fundamentação teórica “O mal-estar na civilização”, postulado por Freud (1996), e o conceito de loucura em Foucault (1978), os quais reúnem motivos centrais para pensar o desconsolo humano expresso nas peculiaridades do modo de escrita de Guimarães Rosa. Assim, esta abordagem possibilitará a análise consistente do tema de estudo e a averiguação do lugar deste tipo de discurso na contemporaneidade. Sob os efeitos da modernidade, a marginalização da loucura e o extermínio daqueles que nela habitam são usados como solução para a regeneração da humanidade, práticas sociais que constituem o sentido que criamos do mundo. A impotência perante a dureza do real em “Soroco, sua mãe, sua filha” e o lugar social do sofrimento humano, que oscila entre a esperança e o desespero, serão aqui contemplados como narrativas do fim.
Esta dissertação tem como objetivo refletir sobre as estratégias narrativas configuradoras de espaços e espacialidades tal como se manifestam em contos do escritor brasileiro João Guimarães Rosa e dos escritores angolanos José Luandino Vieira e Boaventura Cardoso. A composição do corpus foi motivada por textos que permitissem uma aproximação com vistas ao deslinde das configurações espaciais que estruturam as narrativas. Para a realização do estudo, foram conclamados pontos de vista teóricos sobre espaço e espacialidade, particularmente, os de Edward Soja, Doreen Massey, Michel de Certeau, Cássio Hissa e, principalmente, Milton Santos. Embora os objetivos da dissertação privilegiem a constituição espacial, discussões sobre as categorias personagem e tempo também estão presentes para demonstrar a pertinência de utilização de um conceito tomado ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman e de sua teoria sobre o refugo humano. Essa teoria subsidiou a percepção de certas personagens dos contos selecionados, delineadas por elementos que fazem parte do conceito de refugo humano. Como se pretendeu demonstrar, a orquestração de seres do lixo, nos contos analisados, arquiteta e cristaliza o veio de uma literatura que, mesmo produzida em contextos culturais tão diversos, permite construir pontos de contato e delicados olhares para espaços, espacialidades, territórios, paisagens e lugares e seus seres redundantes e exibi-los na cena literária.
O estudo que se apresenta intenciona investigar a pontuação como uma das estratégias de linguagem engendrada na construção narrativa que possibilita a articulação de diversas vozes e consciências de modo que o texto literário mobilize princípios polifônicos. A pontuação, elemento presente na escrita, é tradicionalmente concebida pelos programas e prática escolar dentro da disciplina de Língua Portuguesa como elemento de notação que diz respeito a aspectos da oralidade (para auxiliar a leitura) e reduzida ao nível da frase. Porém, a perspectiva contemplada nesta pesquisa concebe os sinais gráficos imbuídos de outras facetas, além da proposição normativa que refrata a face discursiva e textual. Propõe-se apontar possibilidades de realizar um deslocamento da visão tradicional de pontuação, enfocando a potencialidade enunciativa e discursiva desses sinais, tornando-os fundamentais para a configuração de sentido do texto, atuando no território do discurso. Propondo apontar possibilidades outras dos sinais de pontuação, também se constitui como desafio desse trabalho não dissociar língua e literatura, uma vez que se toma por objeto de análise três contos escritos por Guimarães Rosa “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “A menina de lá” e “Tarantão, meu patrão...”– integrantes do livro Primeiras Estórias (1962) e realiza um exercício de análise da construção narrativa associado ao uso da pontuação mobilizado nesse discurso. Essa proposta de trabalho encontra-se, dessa forma, ajustada à linha de pesquisa Subjetividade, Texto e Ensino que prevê pesquisas que promovam uma melhor compreensão da relação língua/linguagem/literatura com o discurso e o texto. Na sua elaboração recorreu-se a vários teóricos os quais permitiram avançar na análise de aspectos linguísticos (especificamente sobre o emprego dos sinais gráficos na constituição de sentidos do texto) e outros autores e seus estudos acerca dos processos de enunciação na produção literária. A fundamentação teórica principal adotada é de Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) – grande filósofo da linguagem do século XX. Conceitos da complexa arquitetura bakhtiniana oferecem suporte ao estudo da linguagem e, especificamente este trabalho dialogará com os conceitos de dialogismo, polifonia, plurilinguismo. Para o trabalho de levantamento bibliográfico na área de estudo da pontuação, destacam-se as contribuições de Véronique Dahlet (2002, 2006, 2007), Lourenço Chacon (1998), Tânia Câmara (2007, 2008) Bernardes (2002), Saleh (2009, 2010, 2012) entre outros. A escolha de três contos de João Guimarães Rosa se dá por sua ruptura com a linguagem fazendo uma espécie de renovação estilística, fator que possibilita reafirmar o quanto a pontuação amplia as possibilidades de sentido de um texto literário.
Nesta pesquisa, buscou-se abordar a relação entre as práticas de conduta social e o
processo cultural e civilizatório que envolve a temática da loucura através dos
tempos, sob os aspectos legais, psicológicos e literários, além do desenvolvimento
tanto das práticas e estilos literários, quanto das premissas de convívio harmonioso
entre a obra, o autor e os leitores. Foram analisadas opiniões e obras de
especialistas, escritores, psicólogos e cientistas sociais, bem como de diversos
profissionais das áreas afins, sobre a loucura e a sua abordagem na literatura,
possibilitando investigar, identificar em busca da superação das dificuldades de
entendimento social, cultural e civilizatório sobre a loucura, em especial na obra de
Guimarães Rosa (2005), “Sorôco, sua mãe, sua filha”, observando as
particularidades desta realidade mutável e dinâmica, para que possam agir de forma
correta e equilibrada dentro dos limites literários e das instâncias socioculturais e de
natureza psicológica.
O presente trabalho se propôs a analisar o discurso sobre a loucura na literatura e suas
relações com o discurso histórico. Para tanto, tomou-se por base os contos “O alienista”,
de Machado de Assis e “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa, cujas
interpretações serviram de aporte para uma análise do discurso sobre a loucura e o louco
em fontes da cidade de Montes Claros – MG entre as décadas de 1950 e 1980. Como
suporte metodológico foi utilizado o conceito de discurso elaborado por Michel
Foucault e os debates tanto no campo da literatura quanto no da história sobre os
contatos que literatura e história estabelecem quando consideradas linguagens
produtoras de discursos, não de verdades. Para análise do conto machadiano, levamos
em conta, além do diálogo com a fortuna crítica do autor, suas crônicas e os debates
sobre a loucura no âmbito da história, de modo a evidenciar a falência do discurso
científico construído sobre o louco. O conto rosiano foi analisado na perspectiva da
“álgebra mágica”, conceito com o qual Guimarães Rosa diz fundamentar a escrita de
sua literatura. No contraponto do texto rosiano com o contexto histórico da década de
1980 em Montes, explicitamos de que maneira o discurso sobre a loucura já está
socialmente internalizado.
Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária
Este estudo tem como objetivo investigar a literatura de João Guimarães Rosa com o propósito de entrever um desígnio na escritura rosiana. Tal intenção foi delimitada pela constatação de que, na fortuna crítica sobre o escritor, poucos estudos se interessaram em indagar sua obra sob o conceito de escritura. Nesse sentido, esta pesquisa visa a revelar a escritura rosiana à luz da concepção mitopolítica de literatura. Para isso, indagamos a composição de sua escritura nas relações que estabelece com a linguagem, o mito e a poesia. Preocupamo-nos em examinar a escritura rosiana segundo uma visão m tica, buscando revelar não só a sua concepção de linguagem, mas também explicitar o seu modo de funcionamento. Orientaram a nossa reflexão as hipóteses: uma abordagem mitopolítica da literatura rosiana permite entrever as realizações metamórficas de sua palavra; a concretude da palavra rosiana permite compreender uma destinação meta física para sua escritura. Para desenvolver este estudo, selecionamos como corpus os contos Sorôco, sua mãe, sua filha (1962), Meu tio o Iauaretê (1961), e Lá, nas campinas (1967). A fundamentação teórica baseou-se nos conceitos de escritura propostos por Roland Barthes e Jacques Derrida, e de mitologia propostos por Mielietinski, Eliade e Cassirer, assim como em ensaios cr ticos propostos por críticos da literatura rosiana. Valemo-nos também dos princ ípios políticos do próprio escritor, coletados em entrevistas. Conclu ímos que a literatura de João Guimarães Rosa evidencia alto grau de realização de linguagem, que a revela como uma espécie de metafísica racionalista, como uma escritura que, ao talhar a palavra, configura as metamorfoses do signo literário, e, ainda, propõe ao homem, via linguagem e, por extensão, via poesia, uma transcendência racionalista, pautada pela metafisicalidade da linguagem.
Pretendemos analisar o conto “Soroco, sua mãe, sua filha”, do livro Primeira estórias, de João
Guimarães Rosa, e revelar aspectos de uma tragicidade nos moldes propostos por Friedrich
Nietzsche em seu Livro, O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Entendemos que os
acontecimentos narrados no conto rosiano traduzem forças apolíneas e dionisícas que,
sobremaneira, expõe tessituras tramadas entre os gêneros do conto e da tragédia. O conto narra a
estória de Sorôco, um homem do povo que, numa sociedade marcada pelo controle, sem condições
de cuidar de sua mãe e sua filha deve, a contra gosto, entregá-las aos cuidados do hospício de
Barbacena. Os acontecimentos narrados comportam nuances de uma encenação trágica, cujas
urdiduras perfazem o coro que, pela forma como surge no conto, assemelha-se à maneira como
Nietzsche o percebe na tragédia grega.
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