O presente artigo consiste em evidenciar a representação de grupos marginalizados na prosa brasileira contemporânea fazendo referência aos estereótipos e os preconceitos que permeiam o espaço social. Contempla-se por meio da análise do conto de Guimarães Rosa (Sorôco, sua mãe, sua filha) a forma de representação que instiga e chama a atenção do leitor no decorrer dos fatos. Bem como, os discursos que vão circulando socialmente em diferentes perspectivas, o discurso literário como fonte e espaço de representações, contradições e tensões, nesses aspectos o “louco” passa a ser considerado sujeito da diferença, sem voz.
Este trabalho buscou analisar os contos “Rosa Caramela” de Mia Couto e “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de Guimarães Rosa com o objetivo de refletir sobre o lugar dos indivíduos considerados loucos na sociedade. Os contos desses dois autores discutem a temática da loucura sob o véu de narrativas que levam o leitor à mágica experiência literária e sua complexa teia de sentidos. Desta forma, através dos contos, buscou-se ponderar acerca da construção da identidade e da alteridade perpassando pela possibilidade de conhecimento da realidade por meio das interações sociais representadas na obra literária.
A partir da antropologia da saúde e da psiquiatria transcultural, este estudo teórico analisou as concepções de saúde e doença presentes em três contos que compõem a obra Primeiras estórias (1962), de Guimarães Rosa: “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “A menina de lá” e “A terceira margem do rio”. Observou-se uma diversidade de conceitos e sentimentos diante das questões de saúde mental apresentadas nos contos, como: falta de compreensão, marginalização, pressão social para a institucionalização, estereotipação, desumanização, isolamento físico e mental, sentimentos de medo e culpa, tentativa de aceitação e mistificação. Tendo como norte a indissociável relação entre autor, obra, público e condições sociais, tais elementos presentes nos contos podem ser importantes para se revisitar histórica e culturalmente as práticas dentro dos ambientes de cuidado em saúde mental, em busca de uma atenção mais humanizada e que combata a violência nesse contexto, favorecendo uma visão que, de fato, ultrapasse o modelo biomédico centralizado na patologia e promova novos sentidos para a saúde e o adoecer.
Este trabalho objetiva analisar o conto “sorôco, sua mãe, sua filha”, de joão
guimarães rosa, integrante da obra primeiras estórias, a partir da trajetória da personagem rumo à
loucura. Busca-se evidenciar como seu percurso marcado pela agonia acaba por fragmentá-la a
ponto de conduzi-la ao reconhecimento da alteridade. A partir disso, examina-se como a temática
abordada inscreve a produção rosiana no universal, sem sair do particular.
Este artigo, por meio da análise do conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa (Primeiras estórias, 1962), procura dialogar alguns de seus elementos e procedimentos literários a noções e posturas tanto estéticas como ideológicas elaboradas pelo ensaísta, poeta e romancista martinicano Édouard Glissant, principalmente com relação à Poética do Diverso, abordando o tratamento da alteridade, sua opacidade e o papel central do canto na narrativa escolhida.
Esta pesquisa teve por objetivo refletir sobre variadas formas de abordagem do tema da loucura na literatura ficcional e na científica. Para tanto, foram consultados escritores que apresentaram em suas obras registros da demência, tratada segundo as concepções das diferentes épocas e dos contextos sociais e culturais em que se inseriam. Buscaram-se exemplares da literatura em que diversos critérios nortearam os diagnósticos de loucura, bem como o tratamento realizado. Considerando-se o papel da ficção ao apresentar a realidade temática, Machado de Assis, com o conto O Alienista, Guimarães Rosa com os contos “Sorôco, sua mãe e sua filha” e “Darandina” e Erasmo de Rotterdam com a obra: O Elogio da Loucura, que constituíram-se como rica fonte de reflexão e análise. Numa proposta interdisciplinar, foram solicitados para a fundamentação teórico-literária Alfredo Bosi, Antônio Candido, Affonso Romano Sant‟Anna, Bastos e Mikhail Bakhtin. Da literatura científica, buscaram-se as contribuições de Foucault, Amarante, Jung, Freud, Miranda e Canguilhem, Goffman e outros que trataram do tema da loucura, nas mais diversas nuances, dando consistência às percepções decorrentes deste estudo.
Esta dissertação tem como objetivo refletir sobre as estratégias narrativas configuradoras de espaços e espacialidades tal como se manifestam em contos do escritor brasileiro João Guimarães Rosa e dos escritores angolanos José Luandino Vieira e Boaventura Cardoso. A composição do corpus foi motivada por textos que permitissem uma aproximação com vistas ao deslinde das configurações espaciais que estruturam as narrativas. Para a realização do estudo, foram conclamados pontos de vista teóricos sobre espaço e espacialidade, particularmente, os de Edward Soja, Doreen Massey, Michel de Certeau, Cássio Hissa e, principalmente, Milton Santos. Embora os objetivos da dissertação privilegiem a constituição espacial, discussões sobre as categorias personagem e tempo também estão presentes para demonstrar a pertinência de utilização de um conceito tomado ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman e de sua teoria sobre o refugo humano. Essa teoria subsidiou a percepção de certas personagens dos contos selecionados, delineadas por elementos que fazem parte do conceito de refugo humano. Como se pretendeu demonstrar, a orquestração de seres do lixo, nos contos analisados, arquiteta e cristaliza o veio de uma literatura que, mesmo produzida em contextos culturais tão diversos, permite construir pontos de contato e delicados olhares para espaços, espacialidades, territórios, paisagens e lugares e seus seres redundantes e exibi-los na cena literária.
Esta dissertação trata da análise, do ponto de vista literário, da tradução intersemiótica/adaptação cinematográfica de cinco contos do livro Primeiras estórias, de Guimarães Rosa: "Famigerado"; "Os irmãos Dagobé"; "Sorôco, sua mãe, sua filha"; "Nada e a nossa condição"; e "Substância", que compõem o enredo do filme Outras Estórias (1999), do jornalista e diretor Pedro Bial. Trata-se de um estudo comparativo de cada um dos contos a partir das análises literária e cinematográfica, bem como da interseção das duas linguagens. Destacam-se as características da linguagem verbal escrita e as soluções encontradas para a reescrita no suporte verbal e imagético, através da opção de montagem de um único enredo composto pelos cinco contos.
O presente trabalho se propôs a analisar o discurso sobre a loucura na literatura e suas
relações com o discurso histórico. Para tanto, tomou-se por base os contos “O alienista”,
de Machado de Assis e “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa, cujas
interpretações serviram de aporte para uma análise do discurso sobre a loucura e o louco
em fontes da cidade de Montes Claros – MG entre as décadas de 1950 e 1980. Como
suporte metodológico foi utilizado o conceito de discurso elaborado por Michel
Foucault e os debates tanto no campo da literatura quanto no da história sobre os
contatos que literatura e história estabelecem quando consideradas linguagens
produtoras de discursos, não de verdades. Para análise do conto machadiano, levamos
em conta, além do diálogo com a fortuna crítica do autor, suas crônicas e os debates
sobre a loucura no âmbito da história, de modo a evidenciar a falência do discurso
científico construído sobre o louco. O conto rosiano foi analisado na perspectiva da
“álgebra mágica”, conceito com o qual Guimarães Rosa diz fundamentar a escrita de
sua literatura. No contraponto do texto rosiano com o contexto histórico da década de
1980 em Montes, explicitamos de que maneira o discurso sobre a loucura já está
socialmente internalizado.
O estudo que se apresenta intenciona investigar a pontuação como uma das estratégias de linguagem engendrada na construção narrativa que possibilita a articulação de diversas vozes e consciências de modo que o texto literário mobilize princípios polifônicos. A pontuação, elemento presente na escrita, é tradicionalmente concebida pelos programas e prática escolar dentro da disciplina de Língua Portuguesa como elemento de notação que diz respeito a aspectos da oralidade (para auxiliar a leitura) e reduzida ao nível da frase. Porém, a perspectiva contemplada nesta pesquisa concebe os sinais gráficos imbuídos de outras facetas, além da proposição normativa que refrata a face discursiva e textual. Propõe-se apontar possibilidades de realizar um deslocamento da visão tradicional de pontuação, enfocando a potencialidade enunciativa e discursiva desses sinais, tornando-os fundamentais para a configuração de sentido do texto, atuando no território do discurso. Propondo apontar possibilidades outras dos sinais de pontuação, também se constitui como desafio desse trabalho não dissociar língua e literatura, uma vez que se toma por objeto de análise três contos escritos por Guimarães Rosa “Sorôco, sua mãe, sua filha”, “A menina de lá” e “Tarantão, meu patrão...”– integrantes do livro Primeiras Estórias (1962) e realiza um exercício de análise da construção narrativa associado ao uso da pontuação mobilizado nesse discurso. Essa proposta de trabalho encontra-se, dessa forma, ajustada à linha de pesquisa Subjetividade, Texto e Ensino que prevê pesquisas que promovam uma melhor compreensão da relação língua/linguagem/literatura com o discurso e o texto. Na sua elaboração recorreu-se a vários teóricos os quais permitiram avançar na análise de aspectos linguísticos (especificamente sobre o emprego dos sinais gráficos na constituição de sentidos do texto) e outros autores e seus estudos acerca dos processos de enunciação na produção literária. A fundamentação teórica principal adotada é de Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) – grande filósofo da linguagem do século XX. Conceitos da complexa arquitetura bakhtiniana oferecem suporte ao estudo da linguagem e, especificamente este trabalho dialogará com os conceitos de dialogismo, polifonia, plurilinguismo. Para o trabalho de levantamento bibliográfico na área de estudo da pontuação, destacam-se as contribuições de Véronique Dahlet (2002, 2006, 2007), Lourenço Chacon (1998), Tânia Câmara (2007, 2008) Bernardes (2002), Saleh (2009, 2010, 2012) entre outros. A escolha de três contos de João Guimarães Rosa se dá por sua ruptura com a linguagem fazendo uma espécie de renovação estilística, fator que possibilita reafirmar o quanto a pontuação amplia as possibilidades de sentido de um texto literário.
Pretendemos analisar o conto “Soroco, sua mãe, sua filha”, do livro Primeira estórias, de João
Guimarães Rosa, e revelar aspectos de uma tragicidade nos moldes propostos por Friedrich
Nietzsche em seu Livro, O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Entendemos que os
acontecimentos narrados no conto rosiano traduzem forças apolíneas e dionisícas que,
sobremaneira, expõe tessituras tramadas entre os gêneros do conto e da tragédia. O conto narra a
estória de Sorôco, um homem do povo que, numa sociedade marcada pelo controle, sem condições
de cuidar de sua mãe e sua filha deve, a contra gosto, entregá-las aos cuidados do hospício de
Barbacena. Os acontecimentos narrados comportam nuances de uma encenação trágica, cujas
urdiduras perfazem o coro que, pela forma como surge no conto, assemelha-se à maneira como
Nietzsche o percebe na tragédia grega.
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