Este trabalho propõe um exame comparativo do tema da infância e dos aspectos formais que ligam as narrativas “A menina de lá”, de Guimarães Rosa e “As flores de Novidade”, de Mia Couto. Para esse fim, o presente estudo traça como seu objetivo a compreensão das crianças e das linguagens poéticas criadas em língua portuguesa de Brasil e Moçambique sendo agentes de beleza e de sonho em períodos conturbados no Ocidente, como os anos da Guerra Fria e dos combates civis pós-libertação. Sendo composto por uma pesquisa bibliográfica, esse trabalho, volta-se para o exame das aproximações estéticas que fazem da literatura produzida pelo autor de Terra sonâmbula (1992), uma continuação das propostas lançadas pelo autor de Sagarana (1946). Frente ao exposto, pretender-se-á identificar os elementos componentes das narrativas e os pontos de convergência na infância, com base nos estudos de Bosi (2003); Rónai (2005), entre outros. Ao delimitar o estudo dessas obras, Rosa e Couto inserem-se no espaço das chamadas shorts estories. Logo, obtêm-se, entre outros resultados, a constatação de que esses grandes observadores-participantes das histórias contemporâneas de seus países estabelecem as personagens infantis como as únicas responsáveis por preencherem com os seus dons, o jardim do mal que configurou-se em grande parte do século XX.
Este trabalho apresenta a análise comparada dos contos A menina de lá, de Guimarães Rosa e O rio das Quatro Luzes, de Mia Couto que giram em torno de uma mesma temática. Ambos mostram a morte sob a perspectiva de uma criança, apresentando facetas surpreendentemente interessantes para os leitores, por meio de construções miméticas que fazem fantasiar e refletir sobre as maneiras como lidamos com o fim. Assim, no trabalho que se segue buscaremos avaliar os elementos que permeiam a vida e o inesperado desejo de morte de um menino e de uma menina em dois contextos distintos. São narrativas que levam o leitor a ponderar de que forma a morte pode ser poética, ainda que acometendo crianças. Além disso, o leitor é impelido ao aprofundamento de suas próprias experiências relacionadas à temática e convidado a aprimorar sua compreensão do mundo infantil e da morte. Desta forma, nos contos dos dois autores temos a possibilidade de perceber a morte sob o olhar de duas crianças em diferentes contextos e perspectivas sociais. E a partir dessas construções traçar algumas reflexões a respeito da morte, sua representação e a maneira como é encarada pelas personagens infantis nas narrativas.
Com base nos apontamentos feitos por Luiz Tatit nas análises realizadas em seu livro Semiótica à luz de Guimarães Rosa, e também em outros textos seus, nosso intuito é o de examinar e descrever a configuração tensiva que subjaz ao conto “A menina de lá”. Interessa explicitar as operações sintáxicas que estão na base da estruturação narrativa e discursiva da trama e que, por isso mesmo, respondem pela sua força de convocação sensível-inteligível. Ao que nos parece, por meio da construção das personagens dessa narrativa, Rosa traz valiosas contribuições acerca das condições que regulam a interação entre os sujeitos.
Procuramos demonstrar, neste trabalho, que, apesar dos limites inerentes a qualquer sistema de signos, é possível burlar as regras impostas e dar vazão ao pensamento. Para tanto, foram escolhidos textos de linguagem de laboratório em dois contos de João Guimarães Rosa e exemplos de economia de linguagem na obra de Carlo Emilio Gadda, Il Primo Libro delle Favole.
O objetivo desta tese é realizar leituras intersemióticas dos contos rosianos Famigerado, A menina de lá, A terceira margem do rio, Sequência e A Benfazeja e suas respectivas ilustrações realizadas por Luís Jardim para o livro Primeiras estórias. Ao realizar as leituras mostraremos que a relação palavra/imagem, sugere uma forma de recriação da linguagem. Os resultados apresentados foram formulados a partir das teorias gerais da ilustração em consonância com a base teórica de Umberto Eco sobre os aspectos da semiose hermética, presentes no livro Os limites da interpretação (1990).
A proposta desta dissertação é estudar a rememoração na obra Primeiras estórias (1962), de
João Guimarães Rosa, tendo, como suporte teórico, a teoria da reminiscência de Platão. Para o
filósofo, a alma é imortal, pois sempre renasce em diferentes corpos. E quando uma pessoa
aprende algo ocorre uma rememoração, porque há apenas a recordação de um saber já
adquirido pela alma no mundo das ideias. Pretende-se, com base nessa teoria de Platão,
compreender os acontecimentos considerados misteriosos nas estórias rosianas, por se
distanciarem da lógica tradicional, e os comportamentos enigmáticos dos personagens. Por
serem muitas as narrativas que compõem o livro Primeiras estórias, restringiu-se o corpus a
sete contos: “A terceira margem do rio”, “A menina de lá”, “Sorôco, sua mãe, sua filha”,
“Nenhum, nenhuma”, “Um moço muito branco”, “As margens da alegria” e “Os cimos”.
Instituto de Letras. Programa de Pós-Graduação em Letras
Neste trabalho estudamos o livro Os Contos de Belazarte, de Mário de Andrade, publicado em 1934. Nosso primeiro passo foi mostrar o descompasso entre o narrador e o que ele narra. Para isso, iniciamos na origem do narrador (primeiro nas histórias de Pedro Malasartes, depois nas Crônicas de Malazarte, textos do próprio Mário publicados na revista América Brasileira), baseado na tradição oral de contar histórias. Depois, tornou-se importante trabalhar com a história de São Paulo, intrincada na narrativa. Isso foi possível com o estudo da imigração e da tradição italianas da cidade, bem como da modernização, que aparece com inúmeras incoerências e é forjada, principalmente, no trabalho das pessoas do subúrbio. Analisamos também o conjunto da obra: desde as escritas e reescritas do texto até o mapeamento das mudanças de uma edição para outra. Nosso objetivo foi analisar a intenção de conjunto e de organização dos contos, o posicionamento do narrador, as escolhas narrativas, a organização dos contos, enfim, o que faz do livro um projeto estético. Por último, comparamos o conto “Piá não sofre? Sofre.” com outros que seguiam o mesmo tema: o universo infantil. A ideia foi traçar uma linha comparativa entre soluções de representação da infância e de desenvolvimento de narradores de outros contos com a mesma temática de autores como Machado de Assis, Alcântara Machado, Guimarães Rosa e do próprio Mário de Andrade.
O presente trabalho discute as oscilações do protagonista-narrador do Grande sertão: veredas entre sua tentativa de estabelecer um nome próprio – como lugar seguro das designações – e sua inserção nas instáveis veredas de uma identidade infinita e tem como referencial teórico as discussões dos chamados pós-estruturalistas franceses. Ao levantar um mapeamento das posturas do personagem, este estudo objetiva tomar as suas experiências paradoxais como chave de leitura para reflexão sobre a destituição das identidades fixas, o saber nômade da contemporaneidade e as tensões inerentes a tais processos. O mapeamento revela as relações de embate e articulação entre nome próprio e identidade infinita que têm repercussões para as questões relativas à identidade propriamente dita, aos episódios da chefia, à metafísica riobaldiana e às estratégias narrativas do protagonista. Este estudo investiga se o caráter indagador do personagem impulsiona a instabilidade e a desterritorialização, ou se corresponde a uma tentativa desesperada de constituir os territórios de um nome próprio delimitado. Conclui que o personagem desenvolve um tipo relativo de desterritorialização, no qual nome próprio e identidade infinita conjugam-se em um processo dinâmico entre desterritorialização e reterritorialização que, ao invés de deter, colabora para manter ativo o movimento. Para melhor ilustrar e refletir sobre tal questão, compara as posturas do protagonista do Grande sertão: veredas com as de outros três personagens rosianos: Nininha, Brejeirinha e o narrador do conto “Famigerado” de Primeiras estórias. Salienta, também, o caráter heterogêneo e indagador que liga obra, crítica e teoria em contribuições recíprocas.
Esta dissertação propõe-se a analisar ressonâncias da filosofia de Søren Kierkegaard na literatura de João Guimarães Rosa, abordagem ainda carente na fortuna crítica do literato. A hipótese da plausibilidade de aproximação entre os dois autores pauta-se por registros de Rosa em cartas e entrevistas a respeito de seu interesse pessoal por Kierkegaard, também demonstrado pela presença de obras do filósofo e de um livro sobre a língua dinamarquesa em sua biblioteca pessoal. Somado a isso, são dois os pontos fulcrais para a aproximação de ambos: a preocupação com o Indivíduo e a importância que a religião possui tanto em suas vidas quanto para a elaboração de suas obras. A partir disso, optou-se pela análise de cinco narrativas de Primeiras estórias, a saber: As margens da alegria, Os cimos, A menina de lá, A terceira margem do rio e O espelho, nas quais foram analisados os protagonistas com o objetivo de demonstrar em que medida cada um representaria os estágios da existência teorizados pelo pensador dinamarquês: estético, ético e religioso. Após a análise, identificou-se o Menino de As margens da alegria e Os cimos, juntamente de Nhinhinha de A menina de lá, com o esteta kierkegaardiano. Ao estágio ético, pertence o narrador de A terceira margem do rio, e ao religioso pertencem tanto o pai de A terceira margem do rio quanto o narrador de O espelho. Sobre essa última personagem, vale a ressalva de que, dentre os elencados para esse trabalho, é o único que percorre os três estágios, de modo a completar seu movimento de subjetivação existencial.
Este trabalho propomos um encontro entre o Sertão Mineiro, Moçambique e a Amazônia. Geografias culturais e literárias que têm em comum a expressividade da língua portuguesa em interface com a oralidade, a mobilidade, a memória e os imaginários em permanente fricção e reconfiguração, a partir da relação dos sujeitos com a natureza. No livro de ensaios E se Obama fosse africano?, o moçambicano Mia Couto destaca o que, apenas aparentemente, nos parece uma obviedade. Ele afirma: As línguas servem para comunicar. Mas elas não apenas ‘servem’. Elas transcendem essa dimensão funcional. Às vezes, as línguas fazem-nos ser”. Como seres de linguagem, existimos nela [língua], por ela somos atravessados a todo tempo. Nesse sentido, é que “as línguas salvam-se se a cultura em que se inserem se mantiver dinâmica”. Partindo desse pensamento de Mia Couto sobre a fecundidade das línguas, queremos salientar os choques esultantes de três linhas imaginárias peculiares à ação literária dos autores – o Sertão Mineiro, a África moçambicana e a Amazônia brasileira. Três geografias que embora aparentemente dissonantes, são incrivelmente simétricas no desenho que delas nos dão seus autores, dentre as quais relevamos os renovadores aspectos estilísticos da língua em sua opção pela oralidade, a verticalidade do pensamento, a mobilidade dos personagens e das temáticas, o retorno nostálgico da tradicional forma de contar histórias, através de narradores testemunhas porosos. Para tal, colocamos em fricção uma constelação de saberes e ecologias oriundas das narrativas A menina de lá, de Guimarães Rosa; O rio das quatro luzes, de Mia Couto e Estória de meninos, de Tené Norberto Kaxinauwá. Esses textos serão lidos sob os aportes teórico-metodológicos do comparativismo solidário prospectivo e da teoria pós-colonial.
Este artigo consiste em evidenciar como a religiosidade permeia, explícita ou implicitamente, a produção literária de Guimarães Rosa, tendo por base os contos “A hora e a vez de Augusto Matraga” (Sagarana), “A menina de lá” (Primeiras estórias); “Bicho mau” (Estas Estórias) e o “pacto” de Riobaldo (Grande sertão: veredas). A análise incide em pontuar certas constantes do imaginário religioso e sua relevância em cada narrativa e também na instauração do questionamento sobre a verdade oculta que rege o universo e na busca do “aprender a viver”, acentuada preocupação do autor mineiro.
Parte-se da premissa de que o tema do insólito não pode ser desvinculado do conflito gerado pelo
conhecimento da realidade diante de um fenômeno inexplicável. De fato, o insólito encontra-se vinculado a todo comportamento estranho, ou seja, ao que foge do senso comum como argumenta (HELLER, 2014). Segundo a autora, no livro O cotidiano e a história, A vida cotidiana é a vida de todo homem, ele é ao mesmo tempo um ser particular e um ser genérico, por ser único e por ser produto de suas relações sociais. Sendo a literatura a representação possível da vida cotidiana e também daquilo que foge do senso comum, com a inserção do que se alça ao sobrenatural,o artigo proposta analisa o conto de Guimarães Rosa, A menina de lá (ROSA, 1985), do livro Primeiras Estórias. Já o título anuncia tratar-se de uma menina "de lá", de um mundo diferente, incompreendida por fazer previsões, que passam para a família que "nunca tirava o terço da mão" como milagres. Sua linguagem é vista como incompreensível
O trabalho que segue alinha-se aos estudos de literatura comparada no que diz respeito aos contos: A menina, as aves e o sangue do escritor moçambicano Mia Couto e A menina de lá, do autor brasileiro João Guimarães Rosa. O estudo focaliza como se dão as situações em ambas as literaturas os aspectos de Infância e o Fantástico nas personagens em seus territórios culturais. Apoiamos as discussões nos autores que delimitam os estudos de literatura comparada, como, Sandra Nitrini (1997) Tânia Carvalhal (2006),assim como os autores que versam acerca das literaturas africanas de língua portuguesa,Bezerra (2007) Afonso (2004) Appiah (1997) Carlos Espírito Santo (2000) entre outros que versam sobre a temática,assim como autores que pesquisam sobre a literatura de João Guimarães Rosa,tais como Walnice Nogueira Galvão (1978) entre outros e Tzevtan Todorov sobre o fantástico na literatura. Observamos como as meninas aparecem em seus espaços culturais envoltas naquilo que a crítica denomina de fantástico na literatura, como as situações as aproximam, como infâncias se apresentam e também de que modo se diferenciam de acordo com as crenças que envolvem os seus familiares e o sociocultural de cada literatura.
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