Neste artigo serão postas em diálogo as áreas literária e filosófica a partir do conto de Guimarães Rosa, O espelho e o pensamento do filósofo Martin Heidegger, mais precisamente no que tange às questões relativas à revelação e transformação do homem. No referido conto, apresentam-se pontos que coadunam com a vertente proposta por Heidegger, a saber, de que os conceitos não conseguem dar conta não apenas das questões, mas também da visão do homem sobre si mesmo, permeada de ilusórias perspectivas. Objetiva-se demonstrar que o homem afastou-se das questões que o cercam e permeiam o mundo, na tentativa de suprimir o incômodo gerado pela indefinição de si.
Após breve reflexão sobre a noção de alteridade do ponto de vista da psicanálise e do de Roland Barthes, o artigo propõe uma leitura do conto O Espelho, de Guimarães Rosa, com ênfase nas relações entre leitura e alteridade.
Este artigo apresenta uma abordagem sobre o método semiótico do discurso, de A. J. Greimas, para o reconhecimento das etapas de significação durante a análise do texto literário entre estudantes do ensino médio. Nessa perspectiva de uma abordagem sistêmica, o ponto alto dessa proposta de trabalho é a apreciação do evento estético, em cuja análise poderão ser apontadas as figuras e temas espalhadas no universo discursivo do conto O Espelho, de Guimarães Rosa. Para o alcance desses propósitos mergulhar-se-á no aporte teórico de Greimas (1973; 2014), Bertrand (2003), Barros (2001; 2008) e das Orientações Curriculares do Ensino Médio (2006).
“Clássico” de nascimento, Guimarães Rosa irrompe em nossas letras recolocando a matéria regionalis-ta num novo modo de conformação. Modo de compor que promove um espantoso amálgama de formas narrativas numa tessitura lingüística peculiar. Estilo in opere, “incoagulável, reinventando-se em incessan-te dinâmica” (Oliveira, 1991, p. 179); opera a linguagem em todos os seus planos: sonoro, lexical, sintático, semântico. A “revolução da linguagem”, que valeu a Rosa os epítetos de “bruxo da linguagem”, “demiurgo da linguagem”, repousa numa aguda consciência estética sobre a problemática da representação. Além de toda essa orquestração na conformação lingüística, que já implica e denuncia o posicionamento estético assumido pelo autor, o poético também entrará em cena no jogo narrativo.
O objetivo deste trabalho foi mostrar a partir da metáfora do espelho caracterísicas pertinentes ao duplo em duas personagens literárias As personagens centrais que permitiram o exame das formas de manifestação do duplo perencem aos contos chamados O espelho um de Machado de Assis, autor do século XIX e outro de Guimarães Rosa, do século XX Para o estudo da questão do duplo apoiamos-nos nas idéias de vários teóricos A análise dos dois contos em relação á duplicidade baseou-se sobretudo nos princípios de polifonia e dialogia de Bakhtin Do ponto de vista da duplicidade na narrativa, a teoria de Piglia ofereceu especialmente elementos para o estudo do conto de Machado de Assis enquanto o de Guimarães Rosa foi analisado sob o olhar ensaístico tendo por base a teoria de Adorno a fim de relacionar o caráter prismático do ensaio com a questão do duplo. Esta pesquisa procurou desenvolver uma proposa de leitura nova para um tema ainda pouco esudado, portanto aberto a outras reflexões e aprofundamentos.
A Teoria e a Crítica da Literatura usualmente comparam a atividade dos textos poéticos àquela dos espelhos, considerando-os cópia ou refração de uma realidade dada. Desse modo, a fim de que se identifique como as representações se efetivam, parte-se de uma investigação da constituição do real e da dimensão que a linguagem ocupa em tal constituição. Este estudo visa a refletir sobre o conceito e o funcionamento da mímesis, a representação da realidade elaborada por textos literários, a partir de trechos e de obras em que o objeto espelho figura. Assim, especial referência se faz ao trabalho dos filósofos empiristas ingleses concretamente, a Locke, Berkeley e Hume; às investigações filológicas de Auerbach; às teorias da ficção de Bakhtin, Iser e Lima; e aos contos homônimos O Espelho de Machado de Assis e de Guimarães Rosa.
Neste trabalho é propostauma leitura dos contos Nenhum, nenhuma e O espelho, presentes no livro Primeiras Estórias,de Guimarães Rosa. As duas estóriassão analisadasinserindo-as no contexto da modernidade, tendo como tema principal a crise do sujeito. É abordada como se dá,nas duas narrativas,a noção de que o sujeito é, na verdade, fragmentado,e também a busca e a impossibilidade de atribuir sentido ao eu. No conto Nenhum, nenhuma, considerandoa importância do passado para a constituição do sujeito, a impossibilidade de reconstituí-lo por meio da memória acaba resultando em uma crise de identidade, marcada no conto pela oscilação constante do foco narrativo e pela interrogação acerca do eu que se apresenta na narrativa. Já no conto O espelho, a crise de identidade se inicia quando o narrador-personagem, diante de um espelho, vê, no lugar de seu reflexo, a imagem de uma espécie de monstro, que ele percebe se tratar dele mesmo. Reconhecendo, então, a existência de um eu que se esconde por detrás das aparências, o narrador se propõe a realizar um experimento, buscando, assim, alcançar essa parte oculta de si.
Programa de Pós - Graduação em Estudos de Linguagem
A presente dissertação desenvolve uma reflexão sobre o funcionamento da linguagem em um conjunto de contos produzidos por Guimarães Rosa, na perspectiva de uma potencial subversão do real. Para essa abordagem, consideramos que o modo de expressão dos contos em análise transgride e questiona a lógica do real, na medida em que instauram novas leis para o encaminhamento das ações nas narrativas em destaque. Os contos selecionados para análise são “O burrinho Pedrês”, de Sagarana (1946), “O espelho”, de Primeiras Estórias (1962), e “Meu tio o Iauaretê”, de Estas Estórias (1969). Como aparato teórico para potencializar a reflexão, discutiremos a teoria clássica sobre o fantástico, proposta principalmente por Tzvetan Todorov (1970) e as considerações de David Roas em seu estudo A ameaça do Fantástico (2014), em que questiona e problematiza as proposições de Todorov; para a abordagem da produção de Rosa será tomada também a crítica de Antonio Candido sobre o "super-regionalismo" em Guimarães Rosa (1987).
Esta dissertação propõe-se a analisar ressonâncias da filosofia de Søren Kierkegaard na literatura de João Guimarães Rosa, abordagem ainda carente na fortuna crítica do literato. A hipótese da plausibilidade de aproximação entre os dois autores pauta-se por registros de Rosa em cartas e entrevistas a respeito de seu interesse pessoal por Kierkegaard, também demonstrado pela presença de obras do filósofo e de um livro sobre a língua dinamarquesa em sua biblioteca pessoal. Somado a isso, são dois os pontos fulcrais para a aproximação de ambos: a preocupação com o Indivíduo e a importância que a religião possui tanto em suas vidas quanto para a elaboração de suas obras. A partir disso, optou-se pela análise de cinco narrativas de Primeiras estórias, a saber: As margens da alegria, Os cimos, A menina de lá, A terceira margem do rio e O espelho, nas quais foram analisados os protagonistas com o objetivo de demonstrar em que medida cada um representaria os estágios da existência teorizados pelo pensador dinamarquês: estético, ético e religioso. Após a análise, identificou-se o Menino de As margens da alegria e Os cimos, juntamente de Nhinhinha de A menina de lá, com o esteta kierkegaardiano. Ao estágio ético, pertence o narrador de A terceira margem do rio, e ao religioso pertencem tanto o pai de A terceira margem do rio quanto o narrador de O espelho. Sobre essa última personagem, vale a ressalva de que, dentre os elencados para esse trabalho, é o único que percorre os três estágios, de modo a completar seu movimento de subjetivação existencial.
O conto O espelho, de Guimarães Rosa, narra a história de um homem que, através de sua imagem refletida no espelho, inicia um processo de reconhecimento de si, uma vez que tal reflexo não consegue expressar quem ele é de fato, mas somente apresentar uma imagem que em nada o representa em sua essência. Pode-se depreender, em tal obra, três transformações, a saber: a primeira, na qual o indivíduo se confronta inicialmente com sua imagem refletida no espelho, a qual o perturba. Esse é o que se pode chamar de ponto de partida para todo o processo de reconhecimento de si. A segunda aponta para uma suspensão da visão que o indivíduo tem de si, incluindo fatores genéticos e estéticos. A terceira transformação compreende o início efetivo do nascimento do “eu” do narrador, metaforizado através da imagem da criança. Pretende-se estabelecer uma relação interpretativa entre o referido conto com a filosofia de Friedrich Nietzsche, cuja obra Assim falava Zaratustra, apresenta transformações similares através da figura do camelo, do leão e, por fim, da criança. Buscar-se-á explicitar, dessa forma, relacionando o conto de Guimarães Rosa com a filosofia de Nietzsche, o processo efetivado pelo indivíduo para questionar ideologias estabelecidas, que lhe são impostas no decorrer da vida e ele deve carregá-las, como o camelo, mas que, diante de um processo questionador, possa desfazer tais concepções, destroçando-as, tal qual o leão, para, enfim, descobrir quem de fato é através de um novo “eu”, como a criança, que tudo questiona.
Este artigo tem por objetivo apresentar uma leitura do conto “O espelho”, de João
Guimarães Rosa, sob a ótica psicanalítica, já que a narrativa citada nos oferece muitos indícios de
possível proximidade com as teorias desenvolvidas pelo psicanalista Carl Gustav Jung. Para realizar
esta análise, utilizaremos principalmente os conceitos de self, imagem e autoimagem, desenvolvidos
por Jung, além de fazer uma breve retomada da “fase do espelho”, conceito e teoria desenvolvida por
Jacques Marie Émile Lacan. Além dos conceitos da Psicanálise, também utilizaremos como suporte
teórico de apoio a “estética da recepção”, pois um dos conceitos principais dessa abordagem é a de que “a linguagem deixa lacunas que o leitor precisa preencher”. Assim, visando o preenchimento dessas
lacunas, buscaremos analisar os efeitos ou resultados da leitura do conto supracitado sobre o leitor.
O que procuramos quando estamos diante do espelho? O faríamos diante de um espelho sem a imagem que esperaríamos encontrar? Na literatura isso é bastante recorrente. Este trabalho se ocupa com três exemplos nos quais não apenas a questão do espelho é discutida, mas a questão da perda do reflexo como questionamento do Ser. Nas obras homônimas “O Espelho”, de Machado de Assis e Guimarães Rosa, além de “O Reflexo Perdido” (Das Verlorene Spiegelbild) (1815), do escritor alemão E.T.A. Hoffmann, observamos a dinâmica dos espelhos enquanto questão. Na verdade, o percurso dos personagens aparecem no reflexo perdido de cada um: na ausência de suas imagens passam a questionar sua existência. É aí que então, cada um deles encara o seu desdobramento de uma maneira diferente, mas todos através do diálogo. Note-se que quando os personagens perdem seus reflexos, o real, que se dá como realização de mundo, sentido e verdade, se perde. E o que vem a ser mundo sentido e verdade? São questões, e como tais, se manifestam enquanto se retraem tornando-se assim necessária a busca, o percurso. O mundo é a realidade se dando como sentido e quando isso é rompido, este se perde. Diante do espelho o homem se vê um monstro ou uma imagem desfigurada, ou não se vê. Essa quebra de seu mundo, que é aquilo que ele tem por verdade, de repente se esvai, e assim se abre a questão do que é mundo, sentido e verdade, e o que é o homem diante de tudo isso.
Em “O espelho”, de Machado de Assis, há duas narrativas e duas vozes: um
narrador onisciente que conta a história de um encontro de amigos, em uma sala; e o outro, o
narrador-personagem Jacobina, que faz parte desse encontro e relata um acontecimento do qual
participa, de uma teoria – a da duplicidade humana. Relata sua luta para provar a falta de lógica
e de sentido do mundo, tema comum nos contos machadianos, nos quais vários personagens
extrapolam o limite da normalidade. O conto traz algo de vertiginoso e encantador; o efeito
especular – o mise em abyme; anuncia aquilo que nele se concretiza, como se o discurso se
projetasse em profundidade, como uma cascata. Tal artifício reflete o espaço representado,
encaixando uma micronarrativa em outra ainda maior. Nesse contexto, Machado de Assis
confronta os níveis narrativos, ao colocar Jacobina como narrador-voyeur e peça principal da
bipolaridade da narrativa. Dá-se aí a techné machadiana, representada, durante todo o jogo do
conto, pela narrativa dentro da narrativa, e pela dualidade, que se inicia no momento em que
Jacobina dá indícios de que não há uma só alma, mas duas, apresentando a metáfora da laranja,
a separação da vida em duas metades.
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