A ambigüidade é assunto recorrente em obras de escritores latino-americanos. Em Guimarães Rosa, a temática se evidencia no conto Luas-de-Mel, uma das epifanias presentes em Primeiras Estórias. Nesse conto, Rosa consegue tratar de assuntos e de idéias que são considerados opostos como: amor /guerra, brigas /casamento, jagunços / feminilidade. As personagens de Luas-de-mel se constroem e se identificam pela oposição, ou seja, só se estabelecem com presença da contrariedade; elas são a travessia, a terceira-margem.
O escritor brasileiro, Guimarães Rosa, e o moçambicano, Mia Couto, procuram, a partir da narração performática, materializar no texto literário a tradição oral, retomando em suas produções literárias a performance narrativa dos contadores de estórias de ambas as culturas. O objetivo deste estudo é propor um diálogo entre os livros de contos: Primeiras estórias, de Guimarães Rosa, e Vozes anoitecidas, de Mia Couto, na perspectiva de seus narradores. Apesar da diferença espaço-temporal que separa essas duas obras, elas mantêm entre si um intenso diálogo. Ambas são semelhantes no que se refere aos recursos utilizados em sua construção como, por exemplo, a singularidade da linguagem, a prosa poética e a tradição oral, fio condutor dessas duas narrativas. Evidenciaremos de que forma a tradição oral está inserida na criação estética desses escritores. Para isso, serão apreciados os contos “Luas de Mel”, de Guimarães Rosa, e “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”, de Mia Couto.
O objetivo desta pesquisa é apresentar uma leitura sobre o conto “Sequência” e “Luas de mel” da obra Primeiras Estórias, do escritor João Guimarães Rosa, partindo de estudos teóricos sobre o caráter híbrido dos gêneros e da narrativa poética. Esta pesquisa está dividida em três partes: na primeira, presentamos o autor, bem como a sua obra, contextualizando-o no momento literário brasileiro. Também situamos o livro, objeto de estudo deste trabalho, no contexto de produção do autor. Na segunda parte, fazemos o levantamento teórico sobre os gêneros literários e sobre a narrativa poética, especificamente na obra Primeiras Estórias. Para tanto, utilizamos os escritos de Rosenfeld, que trata do hibridismo dos gêneros, de Rònai e Tadié, no que diz respeito às questões relacionadas ao estudo da narrativa poética em Primeiras Estórias. Finalmente, na terceira parte, apresentamos uma leitura do conto, pelo viés da teoria já anteriormente mencionada, trazendo tanto elementos do texto que evidenciam seu caráter mitopoético, quanto, elementos formais e temáticos que mostram o trabalho do autor com a linguagem, com a simbologia relacionada às personagens e ao espaço, além da estruturação do enredo na abordagem da temática amorosa que o conto contempla. Nessa fase utilizamos os escritos de Nunes, Machado, Galvão, entre outros.
Considerando a riqueza com que Guimarães Rosa constrói as 21 narrativas que
compõem Primeiras Estórias será analisada neste artigo uma específica, Luas-de-mel, conto
narrado em primeira pessoa pelo fazendeiro Joaquim Norberto que, entre tantas outras temáticas,
traz em seu enredo uma recorrente nos opulentos meandros da ficção rosiana: o amor. Entre
outros aspectos que serão explorados na análise que segue, o amor, tema que ocupa um lugar
privilegiado na obra de Guimarães Rosa, será desvelado dentro desta leitura através da
transmutação que sofre no decorrer do conto e dos aspectos que o relaciona e assemelha aos
moldes do amor na época medieval.
Faculdade de Letras, Departamento de Letras Vernáculas
Este estudo apresenta algumas reflexões sobre o amor, em três estórias de Guimarães Rosa - "Substância", "Dão-Lalalão" e "Luas-de-mel". Ao mesmo tempo em que mantêm a sua autonomia, há uma profunda intedependência entre elas. Dentro de um universo de diferenças, cada uma se explica junto às outras. Essa integração corresponde a uma vertente do projeto de amor rosiano - manter a diversidade na unidade. A leitura proposta observa que o amor propicia transformações existenciais que ocorrem durante profunda viagem à interioridade dos personagens. Esse processo de metamorfose acontece diante de um tempo descontínuo, porém, circular. Nesse movimento, a natureza se une às mudanças dos personagens e se torna epifânica. Essas estórias mostram que Eros ultrapassa a visão dicotomizada e excludente entre lógico ou alógico, corpo ou alma. Elas propõem o amor envolvendo corpo e alma, razão e desrazão. Nelas, o amor se concretiza na transcendência e permite que o ser esteja em constante movimento de inaugurar a vida a cada instante, se descobrindo e descobrindo o novo e colocando-se por inteiro na aventura do viver.
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