Leitura de aspectos da cultura popular, presentes no processo de construção ficcional de Guimarães Rosa, o “contista de contos críticos”, que confessara: "Não preciso inventar contos, eles vêm até mim”. Pela alquimia da palavra em seu estado primitivo, a fusão do real e ficcional com o obsessiva defesa de que "a legítima literatura deve ser vida". A multiplicação do imaginário rural mineiro na narrativa rosiana, especificamente, em contos de Tutaméia e Ave, Palavra. Historia e estória no cotidiano do povo do sertão mineiro. Pelo jogo da memória narrativa popular, a construção da identidade cultural sertaneja e a recriação do mito: "No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou o tu: por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua".
Guimarães Rosa renova a perspectiva regionalista no Brasil ao ultrapassar o pitoresco e o
exótico regional quando apresenta procedimentos literários, os quais destacam expressividades linguísticas e temáticas com base na voz do homem do sertão. Neste artigo, num primeiro momento, são apresentadas considerações a respeito da obra de Rosa em relação ao ponto de vista regionalista brasileiro de forma a contextualizá-la; em seguida, como foco principal, intenta-se mostrar como pode estar presente no conto “Antiperipleia” um discurso ardiloso, ou persuasivo, por parte do narrador, que passa a ser sujeito do discurso ao invés de objeto de observação passivo. Para dar conta desta tarefa, foi revisitada a fortuna crítica sobre o autor, incluindo Bosi (1988), Coutinho (1991), Candido (2002) e Galvão (2000), dentre outros. Espera-se, com isso, contribuir com os estudos acerca da voz narrativa, na obra de Rosa.
Este texto apresenta primeiramente um conjunto de hipóteses teóricas sobre as relações estabelecidas entre linguagem e emoção, fundamentadas em categorias oriundas da retórica, da pragmática e da análise do discurso. Em seguida, tais hipóteses são aplicadas na análise do conto de Tutaméia acima referido, com vistas a verificar a sua operacionalidade.
Esta dissertação tem como objetivo analisar a obra Tutameia (Terceiras Estórias), de João Guimarães Rosa, a partir das questões da linguagem que giram em torno da escritura literária, relação na qual será pensado o tripé que geralmente ronda a literatura: obra, mundo e autor. O estudo acha-se delineado a partir de três segmentos, o primeiro compreende uma abordagem do espaço literário na concepção de autores como Agamben, Battaile, Blanchot, Heidegger, entre outros; o segundo debruça-se nos quatro prefácios de Tutameia,visualizados como pontes do silêncio que levam em direção ao rio: o pensar se dissolvendo em estórias, peripécias de um fragmento; o terceiro é um convite ao mergulho na escrita rosiana. Para tanto, foram selecionados os seguintes contos: Antiperipleia e Se eu seria personagem. A proposta do estudo, em linhas gerais, é um pensar sobre a literatura, a in-útil no mundo, o fantasma de morte que, impossibilitado de morrer, vem ao homem por ruídos, o eterno jogo de apreensão de um vazio que escapa entre os dedos: condição para o poeta.
O presente trabalho tem por objetivo geral efetuar leitura analítica de sete contos de João Guimarães Rosa, presentes em sua última obra publicada em vida: Tutaméia -- terceiras estórias. Dentre as quarenta "estórias" do livro, elegeram-se as seguintes: "Antiperipléia", "Curtamão", "Êsses Lopes", "Rebimba, o bom", "Se eu seria personagem", "Tapiiraiauara" e "- Uai, eu", que possuem em comum, além da estrutura concisa, a presença de narradores autodiegéticos. Esta categoria, criada por Gérard Genette, diz respeito ao tipo de narrador que participou da história que conta, como protagonista. Para dar conta do artefato teórico foi escolhido como principal obra de apoio O discurso da narrativa, de autoria de Genette. O trabalho visa contribuir com os estudos acerca da obra contística de Guimarães Rosa, com destaque para a figura do narrador.
Centro de Letras e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Letras
Nosso trabalho trata da análise de alguns contos da obra Tutaméia (Terceiras Estórias) de João Guimarães Rosa, com vistas à figura do narratário. Para tanto, procuramos mostrar a importância desta categoria da narrativa que pouca atenção recebeu até hoje por parte da crítica literária e que, fazendo-se presente de forma, às vezes mais, às vezes menos, explícita, no texto, interfere significativamente na construção do discurso do narrador. A relação de comunicação entre narrador e narratário situa-se no nível do enunciado do texto. Assim, buscamos também reconstruir uma outra relação de comunicação que se situa no nível da enunciação, que é a de enunciador e enunciatário, mostrando sempre o papel ativo que se reserva a este último, o qual se constitui num co-autor do texto. Nossa pesquisa discute ainda como, na obra em questão, o diálogo entre narrador e narratário pode conduzir o leitor ao nível da enunciação, onde é possível entrever questões relativas ao próprio ato de narrar, bem como sobre o processo de criação da ficção narrativa e, em alguns contos, da criação artística de modo mais geral. São seis os contos selecionados para análise, tendo como critério de escolha a presença do narratário mencionada no discurso do narrador: “Antiperipléia”, “- Uai, eu?”, “Curtamão”, “Desenredo”, “Se eu seria personagem” e “Reminisção”. Para o desenvolvimento deste trabalho, o referencial teórico principal é a terminologia de Gerard Genette sobre a narrativa, de Gerald Prince sobre o narratário e o conceito de dialogismo de Mikhail Bakhtin, sendo que este último nos auxilia na análise da relação de comunicação entre enunciador e enunciatário.
Centro de Humanidades, Departamento de Literatura, Programa de Pós-Graduação em Letras
Esta dissertação tem como objetivo analisar a obra Tutameia – Terceiras Estórias, de João Guimarães Rosa, a partir de uma perspectiva sobre o engodo da palavra literária, e de como seus meandros tecem e elaboram a escrita. O estudo será mais detalhado a partir de três narrativas previamente escolhidas, intituladas "Hiato", "João Porém, o criador de perus" e "Antiperipleia". E é com base no pensamento do escritor francês Maurice Blanchot, que analisaremos a construção da escrita de Rosa diante de aspectos alicerçados por questões como: a impossibilidade da morte no espaço literário, a busca pela origem da palavra como direcionamento da escrita, a instabilidade e a fragmentação da narrativa, que nos conduz a uma imprecisão, bem como a ausência de ordem que se estabelece no universo literário, a que a escrita se submete, dentre outros aspectos. E é através dessas considerações que teceremos comentários a respeito das falas na construção dessa escrita, em que o espaço habitual da palavra, sempre disposto aos estabelecimentos de soluções críveis e de discursos que procuram ater-se ao verídico, encontra o ficcional, que se associa ao lúdico e ao fingimento, forças oriundas da linguagem literária, a desestabilizar tentativas de veracidade.
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