O artigo estuda a novela Uma estória de amor (1964), de Guimarães Rosa, com o objetivo de apreender o contexto de emergência da oralidade e da tradição oral presentes na cultura popular sertaneja. Parte-se da apreensão desta oralidade como um discurso do encantamento em que não há fronteira entre real e imaginário, expressando-se através de contadores de histórias e suas performances narrativas e a (re)criação e circulação dos contos orais pertencentes ao Ciclo do Boi.
O artigo pretende evidenciar o protagonismo que as elaborações poético-ficcionais desempenham nas novelas “O recado do morro” e “Uma estória de amor”, de Corpo de baile. Descrevemos as ambivalências e os impasses próprios das consciências dos personagens protagonistas, Pedro Orósio e Manuelzão, e, em seguida, o confronto entre a angústia decorrente dos impasses e as irrupções e percursos das estórias, canções e poemas, bem como de seus lugares de origem e seus destinatários, como forma de compreender a incidência incontornável dessas elaborações poético-ficcionais sobre os desfechos das novelas.
Este ensaio pretende observar como a literatura oral, tão discriminada por muitos críticos, pode figurar como um antídoto para o estado anestésico das sociedades modernas. Para tanto, partiremos de um breve resgate teórico que destaca os trabalhos de Benjamin, Ong, Barrento e Lima, por exemplo, e que nos conduz à novela “Uma estória de amor”, de Guimarães Rosa. Nesse texto, a oralidade é apresentada como uma força expressiva que ajuda o protagonista na compreensão da sua própria vida.
Para Tomás de Aquino, Deus cria brincando. A criação é, ao mesmo tempo, obra racional (do
Logos) e lúdica. Assim, o lúdico é necessário também para a criatura humana, Este artigo discute o
conflito vivido pelo personagem Manuelzão (de Guimarães Rosa) diante do lúdico e da festa.
Este estudo organiza uma dicussão sobre a condição humana na obra de Guimarães Rosa. Tendo por texto base o conto Uma estória de Amor ( Festa de Manuelzão), segundo dos que compõem o ciclo de narrativas do Corpo de Baile, apresenta-se uma proposta de interpretação que destaca a presença de uma reflexão multívoca no que respeita à condição humana associada a reflexão a temas afins como o amor e a memória. A festa, de certo modo, descortina, emsua composição coletiva, vários percursos que ampliam o foco dessa reflexão. O objetivo é mostrar que, seja pela composição peculiar de suas narrativas, seja pela espécie de saber que elas guardam, a obra de Guimarães Rosa propõe uma reflexão acerca do homem que suplanta as questões locais.
Este trabalho é um estudo das novelas Campo geral e Uma estória de amor (Festa de Manuelzão), de Guimarães Rosa, que compõem o livro Manuelzão e Miguilim, um dos três volumes da obra Corpo de baile, desmembrada pelo autor na terceira edição. O intento aqui é articular aspectos da teoria psicanalítica, especialmente a partir dos estudos de Freud e Lacan, à análise estilística das novelas, na tentativa de desvendar as marcas que indicam a constituição do sujeito das personagens Miguilim e Manuelzão. Tais personagens, que desenham um percurso de começo e de fim de vida, são observadas não só em rituais de iniciação que marcam a passagem da infância para a vida adulta, em Miguilim, e da vida adulta para a velhice, em Manuelzão , mas também em pistas deixadas, literariamente, sobre o processo de constituição do sujeito estudado pela psicanálise. Em ambas as histórias, são observados os processos identificatórios, fundamentais para a constituição de um eu, articulados ao processo de descoberta dos sentidos da existência, um dos temas centrais na obra do autor. Nesse recorte, as relações familiares, as figuras da mãe e do pai, as marcas da infância carregadas ao longo da vida, as relações entre o mundo interno e externo, os sentidos que se aprendem tanto na infância quanto na velhice são aspectos centrais no estudo. Os conceitos de sujeito, identificação, desejo, ordem simbólica, condensação e deslocamento, memória e imaginário, tão caros à psicanálise, são instrumentos teóricos importantes para a compreensão desses jogos do inconsciente e das sutilezas do discurso do sujeito e seus desejos. Aponta-se, por fim, a força das estruturas psíquicas que, nascidas na infância, se reeditam na vida adulta, a exemplo dos ecos da vivência da trama edípica. A escolha deste viés metodológico não se constitui como psicanálise da obra ou do autor, nem migra conceitos indevidamente do campo psicanalítico ao campo literário e vice-versa, mas busca centrar-se no entroncamento entre as disci
Este trabalho propõe uma leitura da obra de Guimarães Rosa de Corpo de Baile (1956) até Estas Estórias (1969), construída sobre a articulação entre duas dimensões, o livro e a narração. Interroga-se o modo como estes textos colocam em relação, na tensão entre escrita e oralidade que está na sua base, a representação do acto narrativo e a reflexão sobre a construção do livro em função de um questionamento da forma e da legibilidade. Descreve-se a resposta que a organização dos livros de Rosa oferece a problemas de representação e referência, através de uma atenção ao paratexto e à edição, e discute-se a releitura e a parábase como figuras da problematização da leitura.
Faculdade de Letras, Departamento de Ciência da Literatura
Inscrevendo a obra de Guimarães Rosa num contexto mais amplo do que o universo literário e inserindo-o no conjunto de textos que pensam o Brasil, procuramos identificar o fluxo entre os paradigmas semânticos que articulam a construção discursiva do nacional na novela "Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)" e nos textos de diferentes pensadores sociais. No primeiro capítulo, analisamos a recepção crítica da obra de Rosa, e como esta foi articulada com a tradição literária brasileira. Considrando os debates sobre os estudos literários e culturais - submetidos a um processo recente de desconstrução - verificamos que a crise de paradigmas científicos estikulou leituras da obra rosiana, alicerçadas na interdisciplinaridade, e no questionamento de parâmetros teórico-críticos. E, no rastro das contribuições dos estudos pós-coloniais, sobretudo concebendo as dinâmicas da vida societária como de tal modo imbricadas que tingem de artificialismo qualquer aventura interpretativa mecanicista, procuramos aferir o trânsito entre campos semânticos tradicionalmente concebidos como apartados, quais sejam: a ficção e a ciência. No segundo capítulo examinamos os pontos em comum entre a dinâmica criadora de Rosa e algumas das metodologias de que se valem as ciências sociais. Abordamos, então, o papel desempenhado pelas narrativas no contínuo processo de engendramento discursivo da nação. Em seguida, concentrando-nos sobre os personagens Manuelzão, Senhor de Vilamão e Federico Freire investigamos como Guimarães Rosa empreende a leitura das diferentes temporalidades da nação. No lugar de dispor a história do Brasil numa linearidade que elimina o passado, ignora o presente, concentrando-se num futuro remissor, onde todas as esperanças do nosso malogrado processo de modernização seriam satisfeitas, o autor mineiro implode raciocínios fáceis e conservadores. Ao contrário, ao colocar lado a lado passado, presente e futur...
A obra mundialmente conhecida de Guimarães Rosa tem no transitar entre o
popular e o erudito, o oral e a escrita, uma de suas características determinantes. Por meio
dessa fusão, o autor transpõe e recria na ficção, na figura do sertanejo do interior dos
Gerais, os medos e incertezas humanos, no que diz respeito à compreensão de si mesmo e
do mundo. Nosso trabalho objetiva analisar a presença da oralidade em Corpo de baile
(1956), a partir de “Campo Geral” e “Uma estória de amor”, a primeira porque “contém,
em germe, os motivos e temas de todas as outras” (ROSA, 2003, 91), a segunda porque
“trata das “estórias”, sua origem, seu poder” e do “papel, quase sacerdotal” (idem) de seus
porta-vozes. Para tal, recorreremos aos contributos de Paul Zumthor e Câmara Cascudo,
dentre outros.
“Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)” é uma das de sete novelas constituintes da obra Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa, publicadas, pela primeira vez, em 1956. A novela ambienta-se no espaço rural de Minas Gerais e desenvolve-se a partir do mote da festa de Manuelzão, entre travessias de vaqueiros e de boiadas. O enredo é marcado pela oralidade, por costumes, pensamentos, comportamentos e por diferentes ritmos característicos do Brasil rural. É a partir da multiplicidade de elementos nessa narrativa, que proponho um estudo comparativo entre literatura e dança. Para isso, intenciono analisar a representatividade da festa como um traço mítico-memorativo e a presença de bailados populares como práticas sociais. Além disso, são consideradas perspectivas literárias, a partir da fortuna crítica de Guimarães Rosa, e noções de cultura popular e de tradição. O cruzamento dessas perspectivas possibilita o desenvolvimento do estudo interartes, proposto neste trabalho, visando a percorrer travessias entre dança e literatura na narrativa de Guimarães Rosa.
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