Este ensaio faz parte de uma pesquisa cujo objetivo é o estudo das relações entre verossimilhança e inverossimilhança na obra de Guimarães Rosa. São feitas considerações acerca dos momentos iniciais da recepção da obra junto à crítica profissional, salientando-se principalmente o modo como a inserção do elemento inverossímil, numa narrativa que remete à tradição realista e regionalista, provoca o espanto dos comentaristas. Tal espanto, contudo, comparado com a relativa reserva com que são recebidas outras obras, como a de Clarice Lispector, mencionada no ensaio, indica que a construção do modernismo, para a crítica, implicava, entre os anos 1940 e 1950, o resgate e o aprofundamento de certas tendências regionais exercitadas, no Brasil, pelo romance de 30 nordestino. No encontro entre o realismo regional e a fantasia imaginativa, de caráter inverossímil, se localizaria a originalidade de Guimarães Rosa.
Guimarães Rosa e sua obra já fazem parte do cânone literário brasileiro, inclusive por sua
inovação linguística. A crítica literária considera o autor, e consequentemente sua produção
literária, como integrante dos romances ditos regionalistas, justamente pela temática voltada
para o interior do país. Contudo, sabemos que o termo "regionalismo" serve para diminuir o
valor literário de obras que não fazem parte do "centro" do Brasil, dominado pela elite
literária carioca e paulista. Por esse motivo, Grande Sertão: Veredas será retratada a partir de
outro enfoque, resgatando novos elementos que a compõem e a tornam um cânone literário,
sem o rótulo de “regionalista”. Serão utilizadas a teoria do Perspectivismo Ameríndio, do
antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que nos ajudará a entender um pouco sobre a cultura
indígena, iluminando o modo de pensar não ocidental; o conceito de performance de Paul
Zumthor, visto que Riobaldo se distingue de outros narradores tradicionais do gênero; outras
fontes como a biografia de Guimarães Rosa e, ainda, alguns textos publicados pelo autor
servirão de base para a proposta aqui presente.
Este artigo enfoca um episódio de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, no qual o protagonista Riobaldo, então denominado Urutu-Branco, encontra um leproso e sofre a tentação de matá-lo afim de, como ele próprio afirma, "emendar o defeituoso". Esse episódio é exemplar quanto à tematização da culpa relacionada ao corpo; sua análise possibilita inserir esse tema na questão central de Grande sertão: veredas, a da existência (ou não) de Deus e do Diabo.
Odisseu, Dom Quixote e Riobaldo, pela sua natureza de personalidade, são existencialmente condicionados por um texto. Vivem no discurso, sendo o seu universo caracterizado por um determinado enunciado.
A partir do ensaio “O homem dos avessos”, em que Antonio Candido analisa a obra Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, pretendo mostrar o que chamo de dupla navegação do ensaísta no modo de compor a análise. Trata-se de desentranhar do caminho analítico justamente o movimento duplo e ambíguo que Candido surpreende no autor mineiro, qual seja, a oscilação entre os passos enraizados no realismo, herdeiro da vertente crítica dos anos 30, e o voo inventivo e criativo que singulariza escritor e crítico. Selecionando passagens notáveis do ensaio, busco examinar essa dupla flutuação como procedimento crítico analógico à temática estudada por Candido.
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