Este artigo apresenta o conto “Conversa de Bois” de João Guimaraes Rosa em uma perspectiva fabular. O conceito de fábula abarca um grande espectro de significações, que vai desde: resumo, intriga, conjunto, construção, até o conceito mais formalista, que lhe dá um sentido mais material. No entanto, imprimiu-se no gênero como característica principal, o cumprimento de uma ação e o uso do antropomorfismo (quando animais assumem características humanas). Na verdade, essa característica é que define o gênero fábula, pois as personagens principais são animais. O termo fábula vem do latim, fari, que significa falar ou do grego, phao,significando contar algo. A narrativa tem uma natureza simbólica e/ou alegórica, retratando uma situação vivida por animais, remetendo-se à situação humana, com o objetivo de transmitir certa moralidade. Lembrando a estrutura proppiana entende-se que ao explorar a fábula, o autor mineiro recusa o estado efêmero do fazer literário, entendendo-o como constante e cíclico, um eterno exercício de reconhecimento. Não há como encerrar algo essencialmente inclinado a se perpetuar. A obra literária se emancipa de seu tempo, contexto e espaço, seguindo como expressão autônoma que é. A conversa é de bois e os ouvintes são os humanos. A literatura e o sertão são do mundo.
O presente artigo trata da questão da personificação dos animais em alguns contos de Clarice Lispector e Guimarães Rosa, analisando a importância e a finalidade desse recurso nas obras, bem como a forma como é explorado. O estudo busca também comparar os textos selecionados, apontar ou identificar as características das fábulas, tendo como base o conceito desse tipo de texto, e verificar se a forma como os autores utilizam essa estratégia influencia o fator de verossimilhança das obras. Além disso, serão abordadas a simbologia de alguns elementos encontrados nas narrativas, sua relação com o enredo e a oposição zoomorfismo X antropomorfismo como fator importante para evidenciar as características psicológicas dos personagens.
O presente estudo é uma leitura interpretativa do conto “Conversa de Bois”, de João Guimarães Rosa.
Interessa-nos investigar de que maneira o Rosa pensador transpõe para o domínio literário seu
pensamento filosófico. Subsidiados pelos escritos de Friedrich Nietzsche e pelo testemunho do próprio Rosa, trabalhamos aqui com a idéia de crítica da razão, segundo a qual o conto em questão pode ser entendido como a metáfora do combate entre razão e instintividade De um lado, o homem,
representante da instância lógica, aferrada ao intelecto; de outro, o boi, tomado como símbolo da
consciência artística, criadora de inéditas realidades.
Centro de Humanidades, Departamento de Literatura, Programa de Pós-Graduação em Letras
João Guimarães Rosa definia-se como um homem do sertão e mostrava-se fortemente ligado à terra. Ao longo de sua monumental obra encontramos densos registros sobre essa ligação. Em 1965, revela em entrevista a Gunter W. Lorenz seu peculiar interesse por animais, diplomacia, religiões e idiomas. A biografia do escritor não se dissocia da obra. Dessa forma, evidencia-se em O burrinho pedrês e Conversa de bois - o tratamento conspícuo dispensado aos bichos. Assim sendo, procederemos a um exame das referidas novelas de Sagarana tendo como escopo a estreita relação do homem com a natureza e, mais detidamente, com os animais. Para tanto, utilizaremos textos teóricos que versem acerca da inserção humana em ambiente natural - entre eles os de Leonardo Boff e Nancy Mangabeira Unger - e literários - mitos gregos e latinos e lendas indígenas. Veremos ainda que as novelas selecionadas para análise apresentam crianças e animais. Esses seres interligam-se e vivenciam a atuação de forças sobre-humanas em suas vidas. Ao longo do trabalho relacionaremos ao tema de nossa pesquisa os desdobramentos da autodefinição de Rosa supramencionada em sua existência (infância em Cordisburgo, vida doméstica no Rio de Janeiro, viagens ao exterior e ao interior de Minas Gerais, passeios) e obra (novelas de Sagarana, sobretudo).
Esta pesquisa, de caráter analítico e bibliográfico, tem como foco a temática da infância e objetiva apontar algumas possibilidades de leitura do conto Conversa de bois, que integra o livro Sagarana, e da novela Campo geral/Miguilim, que integra a obra Corpo de baile, de João Guimarães Rosa, bem como da transposição fílmica de Campo Geral para o filme Mutum (2007), de Sandra Kogut. Portanto, a presente dissertação atém-se à práxis da leitura literária, articulada às teorias sobre a recepção de textos literários de Hans Robert Jauss, Wolfgang Iser, Vincent Jouve, Umberto Eco e Mikhail Bakhtin, à leitura analíticainterpretativa dos referidos textos rosianos. E, ainda, a pesquisa visa o estudo do conceito sociológico de infância, advindo da tradição europeia, respaldada nos autores Elizabeth Badinter e Philippe Ariès, e no contexto cultural brasileiro em Gilberto Freyre, e ainda, analisa-se o rito precoce de passagem de menino a homem de Tiãozinho e Miguilim personagens de Guimarães Rosa , tendo por base os pressupostos teóricos de Mircea Eliade. Finalmente, respaldando-se nas teorias de leitura/recepção do primeiro capítulo, nas concepções sociológicas sobre o tema infância do segundo capítulo, bem como na técnica narrativa do cinema de David Wark Griffith, analisa-se como os temas abordados por Guimarães Rosa em Campo Geral, são retomados pela perspectiva da linguagem cinematográfica por Sandra Kogut, no filme Mutum, ou seja, no último capítulo deste estudo, analisa-se como é captada a configuração da infância no referido filme. Em síntese, objetivase analisar a temática infância no conto Conversa de bois e na novela Campo Geral/Miguilim a partir da perspectiva da teoria da recepção, da perspectiva sociológica do conceito de infância, bem como a forma como esta temática é retomada pela cineasta Sandra Kogut no filme Mutum.
Esta tese realiza um estudo na obra de Guimarães Rosa, detendo-se, especificamente sobre três contos no livro Sagarana, que são: São Marcos, A hora e vez de Augusto Matraga e Conversa de bois. Seu objetivo toma como categoria específica de análise, o herói, orientando-se segundo duas abordagens. A primeira tem como fundamento o reconhecimento de uma estrutura formal que sustenta as narrativas populares como matriz textual dos contos selecionados. A figura do herói, animada pela série luta-provação-superação, advinda do universo popular, evidencia o mito como ideia especulativa e filosófica sobre a existência. Na base temática da unidade formal de nossos contos identificamos as variantes da sátira menipeia, que remontam diretamente ao folclore carnavalesco (o tempo coletivo que torna possível a vizinhança das coisas e dos fenômenos de onde nós saímos e para onde voltaremos). A particularidade mais relevante do gênero da menipeia que capturamos em nosso recorte é a criação de situações extraordinárias pelos jogos de oximoros, com o intuito de provocar a experimentação de uma ideia filosófica. O caráter temático dos contos de tipo carnavalesco está por sua vez vinculado estreitamente ao sistema histórico-cultural da vida comum do sertanejo. Assim, a segunda abordagem pretende seguir a lógica cultural e simbólica da estrutura sócio-histórica representada, propiciando um trajeto investigativo que vai do imaginário de um grupo bem definido (crenças, código de honra e vingança) às relações sociais e vice-versa. Nosso percurso analítico em torno da obra Sagarana toma como ideia crítica fundamental a noção de que a arte rosiana desencadeia uma reflexividade em que múltiplas correspondências podem surgir a partir de uma constelação de elementos aparentemente díspares. Nos contos selecionados, dedicamo-nos a estudar como os acontecimentos morais e históricos da vida do sertanejo, constituindo a sua visão de mundo, cruzam-se com o caráter cíclico (tempo mítico) que a obra assume interessadamente, realizando a sua unidade artística.
A presente pesquisa apresenta como proposta uma análise comparativa de contos dos ficcionistas Guimarães Rosa e Miguel Torga, a partir da representação do animal humanizado em algumas narrativas. Através de levantamento bibliográfico, constatamos expressiva e singular representação de bichos na obra dos escritores referidos, que dialoga em momentos diversos. Interessa-nos, dessa forma, apurar de que maneira o animal dotado de características humanas está representado nas narrativas, bem como de que modo os autores mencionados abordam a relação entre o bicho, o homem e o mundo que os rodeia, que, no caso das obras dos autores citados, está situado, físico e emblematicamente, sobretudo, no meio rural. A nossa leitura privilegia as implicações da relação humano-animal em textos dos escritores aludidos, implicações que se baseiam, principalmente, em saberes alternativos, identificações e dicotomias. O corpus selecionado são os livros: Bichos, de Torga, e Ave, palavra, Estas estórias e Sagarana, de Guimarães Rosa. Cabe apontar, também, que tomamos como operadores de leitura a noção de antropomorfismo e o recurso da análise comparada.
O presente trabalho concentra-se na análise de como, através dos elementos
narrativos, como narrador, personagens e historia, Guimarães Rosa constrói o tema da justiça em contos de Sagarana. Embora toda a coletânea seja levada em consideração, demos ênfase no estudo de: "O burrinho pedrês", "Duelo", "São Marcos", "Corpo fechado", "Conversa de bois" e "A hora e vez de Augusto Matraga". Percebemos que a justiça construída nos contos tem sempre duas formas de manifestação: a justiça humana e a justiça divina, que rege todos os acontecimentos das histórias.
Pretendo apresentar a pesquisa que estou desenvolvendo sobre a questão animal em duas narrativas de Guimarães Rosa: “O burrinho pedrês” e “Conversa de bois”, publicadas em Sagarana. Em ambas, prevalece o ponto de vista dos animais sobre o mundo e sobre si mesmos. Nesse sentido, por meio da composição da interioridade de personagens animais e também da valorização de diferentes vozes discursivas, as duas narrativas despertam uma reflexão sobre a problematização das categorias de “humanidade” e “animalidade”, estabelecidas pela ciência e pela filosofia ocidentais. Portanto, a partir do estudo sobre a construção da escrita de Guimarães Rosa, proponho uma investigação sobre a questão animal emerge nas histórias selecionadas para o corpus dessa pesquisa. Para tanto, busco um diálogo com os textos de Maria Esther Maciel, bem como de Derrida, Montaigne e Jakob Von Uexkull, reconhecendo suas diferenças teóricas e considerando as contribuições que possam sustentar outras formas de pensar o animal, sobretudo na cultura do sertão roseano. Dessa forma, procuro evidenciar que a literatura em Sagarana “abala” a noção de “humanidade” como algo que se afasta da condição animal.
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